Disputar Hegemonia
Democrática Virtuosa
Estamos em ano de eleições
estratégicas, que podem definir se vamos conseguir sair de um estado de
“encurralamento democrático” e avançar na construção de uma democracia mais
virtuosa ou se, pelo contrário, voltaremos a uma crise institucional de consequências
imprevisíveis, submetidos a uma direita extrema em contexto de um capitalismo negador
de direitos básicos.
Celebrar a nossa capacidade de
resistir à onda da direita antidemocrática, sem mudanças que nos conduzam para
uma democracia ecossocial transformadora, de direitos iguais na diversidade,
com cuidado, convivência e compartilhamento, não aponta um futuro melhor, só
impede uma deterioração irreversível. A vivência em situação de violência
sistemática já é uma “normalidade” para as grandes “periferias” das cidades e
dos campos. Até quando? Poder conviver
na diversidade do que somos, gozando de direitos iguais, não é uma
impossibilidade, mas nunca será realidade sem um projeto de poder político
democrático transformador.
Temos resistido muito. Ou, de
outro modo, nos defendemos da direita e sua pregação, mais do que levantamos
bandeiras de transformação democrática ecossocial possível desde o aqui e o agora.
Para disputar hegemonia é necessário criar um projeto estratégico alternativo.
Podemos evitar o pior, como aliás temos feito. Mas transformar e abrir
horizontes de esperança exige mais do que uma certa maioria eleitoral nas
eleições de final do ano.
A maioria eleitoral – parâmetro
institucional – se expressa nos votos depositados na urna. Mas a vontade
política de votar e em quem votar se cria com disputa de hegemonia muito anos
da eleição em si e com propostas de governo e de representantes na Câmara e
Senado que apontam para um processo de avanço na conquista e garantia de
direitos, com políticas adequadas para implementá-los.
A institucionalidade democrática
conquistada em 1988 – importante para o recomeço de uma nova história após os
horrores da ditadura militar – foi mais uma nova base fundamental, mas não o
fim de novas conquistas possíveis e que continuam necessárias para a inclusão
de todas e todos no gozo dos direitos fundamentais de cidadania. Ela só foi
possível pelo ativismo cidadão nas ruas naquela conjuntura histórica, mas as
demandas eram muito mais ousadas. Não levamos os criminosos da ditadura para as
prisões e nem evitamos possíveis aventuras ditatoriais futuras, como foi o
janeiro de 2023, que nos fez reféns dos humores do STF, salvaguarda da
institucionalidade sempre ameaçada pelo Congresso que temos e o núcleo de uma
direita autoritária capaz de destruir tudo que lembre democracia.
Em minhas análises e ativismo
considero que, sim, temos uma base mínima democrática, mas muitas conquistas –
um começo apenas – podem ser desmanteladas. As frustrações se acumulam. Defino
a nossa situação como de uma democracia em processo lento e pouco transformado,
não de avanços substantivos. Os pilares do
encurralamento da democracia estão basicamente no “centrão” e na total submissão ao sujeito engravatado
“chamado mercado”. O “centrão” ( com letra minúscula mesmo!) mama nas emendas
parlamentares para seus redutos eleitorais, com compra de votos e corrupção desavergonhada
(lembra o velho “coronelismo” da primeira República) no controle do Poder Legislativo. O “mercado”
expressa a seu modo a hegemonia do capitalismo neoliberal globalizado, que
prioriza o “austericídio” fiscal do Estado em favor dos juros da dívida – o
bolso daquela minoria de 1% e especuladores internacionais. Financiar políticas
públicas para garantir direitos iguais e
o cuidado com gente e a natureza é com o que sobra no orçamento. Na verdade, o “encurralamento democrático” é o
efeito somado destes dois cânceres destrutivos. Até quando?
A democracia não é um fim em si
mesmo, mas um modo de viver e conviver, apontando futuros possíveis. Todo mundo
sabe que nada se faz de um dia para outro, pois o que se busca em democracia são
formas e processos virtuosos que apontam horizontes melhores, desde aqui e
agora. Mais, nas democracias deveria prevalecer o poder das cidadanias, tanto
votando como participando ativamente na definição e implementação das políticas
públicas. O fato é que estamos longe de tudo isto. Mas mais importante é que ou
a vibrante diversidade de modos de ser cidadanias assume seu papel ou, na
melhor aposta, ficaremos no marasmo atual e contentes com pequenas vitórias,
nada de novos caminhos, só evitando o pior.
Nunca é tarde reagir, mas também
não dá para ficar esperando que surjam salvadores da pátria. Cabe a nós mesmos,
cidadanias diversas, desbravar caminhos mais promissores e que semeiem
esperança para as maiorias sofridas de nosso país, com tantas mazelas e exclusões
enraizadas, sobretudo nas periferias urbanas e rurais. Não é meu objetivo
tratar delas, pois no dia a dia são notícias, até de grandes meios de
comunicação e mídias sociais que tentam
dominar o que pensamos e discutimos. A verdade é que as injustiças não é
possível deixar de ver ou fugir. Estão simplesmente visíveis, mas nem sempre sensibilizam
e geram compaixão e solidariedade.
É possível, sim, sair deste
“estado”, mas precisamos nos organizar para isto. Até agora as polícias,
geridas pelo Estado em sua institucionalidade, geram mais insegurança do que
segurança. Como cidadanias temos que reconhecer que o “desempate” virá de
grandes movimentos de cidadania ou não virá. Por melhor que possam ser os candidatos
eles dependem da conquista da vontade cidadã. Por isto, precisamos disputar o
espaço público das ruas, avenidas, praças, bares, até mesmo da praia. Nosso
voto conta, mas temos uma disputa de hegemonia a fazer bem antes do dia de
votar. Disputar hegemonia é algo que precisa ser tarefa de cidadanias no nível
da sociedade civil, antes de votar e depois para fazer cumprir os compromissos
de candidatos com bandeiras de cidadania. Temos o exemplo virtuoso do movimento
VAT – Vida Além do Trabalho, com a agenda de 5 por 2. Surgiu do “povão” e já
virou projeto de lei no Congresso. Mas como as agendas virtuosas de diferentes
movimentos sociais podem ir além de ser notícia e animar grandes coalizões
cidadãs pela país, nos campos e cidades? E a agenda de segurança, vamos deixar para o
Estado resolver? Ou uma agenda mais virtuosa de participação social na
definição de políticas sociais, econômicas e ambientais vamos simplesmente
esperar pela “sensibilidade” dos eleitos que nos vão representar nas esferas
estatais. Ou a participação e a cobrança de efetividade nas mudanças por mais
direitos e cuidado com a gente e a natureza é nossa agenda como cidadanias ou
nunca passará de eventuais “consultas” e da boa vontade dos eleitos, como aconteceu
nestes anos, até com governos “progressistas”. Não tenho dúvidas que é melhor
com eles do que sem eles, mas é pouco, muito pouco.
A conjuntura parece adversa, ao
menos é o que expressam as pesquisas eleitorais e os grandes meios de
comunicação martelam. É um sinal, mas longe de ser uma verdade incontornável.
Como pesquisador social sei que os poucos entrevistados nas sondagens podem ser
induzidos, pois tive experiência pessoal de entrevistados perguntarem se
acertaram nas respostas. Ou seja, na hora de depositar o voto todas e todos, de
algum modo, somos influenciados pelo dito e martelado sistematicamente. Mas,
cabe a nós explorar agendas no chão da
sociedade civil. Como diz o grande analista político,
Gramsci, a relação de forças políticas se faz na disputa de hegemonia. E
ela se expressa, pelo voto, na correlação de “forças militares”, como o autor define
o poder estatal.
Nunca é tarde começar. Mas precisamos
olhar menos para o Estado e mais para a sociedade civil. Devemos cobrar ousadia
democrática de nossos candidatos, mais do que desculpas pelo que deixaram de
fazer “por causa da realidade do poder”. Já esperamos demais. Vamos disputar
processos mais virtuosos nos territórios em que vivemos!