Por uma Democracia
Ecossocial Transformadora
Sem dúvida, democracias se
assentam em consensos de princípios de convivência cidadã, direitos iguais e
constituições como referências institucionais, com eleições periódicas, quando
se definem as relações de forças na composição do Poder Estatal, segundo as
normas estabelecidas. Como bem conceitua Antônio Gramsci, o Poder Estatal exprime
relações de “forças militares” do período histórico de uma sociedade. Mas as
“forças políticas”, que lhe dão legitimidade, se forjam no chão da sociedade
civil, pelas cidadanias em sua diversidade, onde se dá a disputa de hegemonia
política que, em democracias, se expressa em programas estratégicos institucionalizados
em partidos, referendados pelo voto. E na base de tudo, como fundamento da
estrutura econômica e social, estão as classes sociais definidas pela sua
inserção em relações de trabalho, economia e vida, estabelecendo limites e
possibilidades. Mas como o conjunto é uma situação variável e um processo
histórico datado, não existe nenhum determinismo absoluto, incontornável, sem
possibilidades de ser transformado exatamente pelas disputas políticas e pelas
conjunturas que elas criam.
Um elemento essencial no processo
são os interesses, as concepções e os valores da diversidade de classes que uma
sociedade concreta gesta pelo processo coletivo de produzir e reproduzir a vida,
eivado de desigualdades, explorações e subordinações, sempre algo histórico e
com recuos e avanços exatamente pela luta social. A situação democrática nada
mais é do que uma forma de consenso possível para disciplinar/enquadrar
possibilidades e limites para a expressão de contradições nas relações de
classes e o arranjo que propiciam historicamente pela luta entre elas, num
quadro de possibilidades, para limitar o seu potencial destrutivo, tudo em
permanente movimento para melhor ou para pior, ou simplesmente num difícil
empate, sempre suscetível a mudanças pelas lutas sociais reguladas, reformadas
ou mudadas radicalmente dentro dos limites constitucionais.
Sem dúvida, a análise conjuntural
é uma condição indispensável para avaliar possiblidades e limites. Mas sempre
necessitamos, de referentes para tais análises. Pessoalmente, reconheço que
além da inspiração assentada nos clássicos, adoto uma visão transformadora de democracia
ecossocial, um processo mais do que um modelo. Trata-se de não ficar
limitado à formalidade constitucional histórica como concepção, mas de um
paradigma civilizatório que pode dar uma visão e um modo de tratar as questões históricas.
É mais do que um ideal, pois é uma proposta de modo de pensar. Não se limita à
institucionalidade política a que o conceito de democracia se refere. Integra
na qualificação da democracia os princípios e direitos iguais com o cuidado,
convivência e compartilhamento entre todas e todos, tanto do viver como dos
bens comuns naturais e aqueles produzidos coletivamente. Por isto a qualificação
da democracia como ecossocial, não só ecológica e nem só social, mas da
integridade do viver em coletividade com direitos iguais e compartindo o mesmo
Planeta Terra, bem comum universal. Alguns preferem definir como
ecossocialismo, uma grande inspiração, sem dúvida. Para mim democracia ecossocial
exprime melhor as muitas possibilidades históricas e ecológicas a partir dos múltiplos
e extremamente diferentes territórios em que vivemos, do que uma fórmula política
um tanto abstrata de ecossocialismo. Afinal, compartilho da ideia dos
zapatistas mexicanos de um “mundo onde cabem muitos mundos”. A verdade é que na
relação com a Mãe Terra múltiplas formas de viver precisam ser reconhecidas
e viabilizadas.
Estou retomando esta visão ampla
para situar o desafio renovado que nos propiciam as próximas eleições como
diferentes cidadanias ativas, articuladas ou não, no enfrentamento de forças
dominantes que lutam para impor e manter o status quo existente que lhes
é favorável. Não vou me deter lembrando que a maioria absoluta, em termos
estruturais, é formada por trabalhadores com ou sem contrato, pobres e
excluídos, sofrendo as mais diversas violações de direitos que, no entanto,
estão na Constituição, ou de direitos que ainda nem são reconhecidos em termos
práticos. Por que esta situação estrutural ainda dominante é o grande desafio para
cidadanias ativas engajadas em lutas por democracia ecossocial transformadora
em busca de direitos iguais na
diversidade?
A resposta é simples e complexa
ao mesmo tempo. Sem dúvida, temos uma situação “emergencial” onde avançamos
pouco com a democracia que conquistamos em 1988. Não derrotamos os “donos de
terra, gado e gente”, nos campos, dispostos a transformar o país num grande produtor
extrativista e de agronegócio, interessados em manter uma inserção primário
exportadora no mundo do capitalismo globalizado. E, nas cidades, das maiorias
excluídas e entregas à própria sorte, temos o pequeníssimo e poderoso grupo dos
que se consideram “o sujeito coletivo mercado”, ainda mais determinante para
limitar a democracia e as possibilidades de transformação. Esta é a resposta
simples. A outra, mais complexa, é como e por que as maiorias tendem a votar em
direitas e seus lobbies, ou até em propostas autoritárias de desmonte de
conquistas democráticas? Ou seja, o desafio é diretamente relacionado à questão
de emancipar as maiorias discriminadas, pobres e excluídas, dependentes de
favores destes pequenos blocos de donos, que até compram seus votos.
A combinação das duas questões carrega
a complexidade política destes desafios. Como disputar sentidos de emancipação
social e plenitude de direitos para que a grande maioria seja também maioria em
termos de voto, podendo desencadear processos de transformação democrática
ecossocial?
Na verdade, estou afirmando que o
principal desafio é para nós mesmos, cidadanias ativas. Onde estamos? Sem dúvida a disputa tem candidatas e
candidatos por partidos. Esta é a regra. Mas somos nós, cidadanias em nossa
diversidade que temos legitimidade de propor e comprometer os candidatos para
uma agenda transformadora. Vou lembrar de algumas questões levantadas por
alguns analistas que devemos considerar pelo potencial que representam.
Vou focar o espaço público, não
estatal, antes de tudo. Estou aqui me referindo ao que circula como informação
massiva, uma espécie de nuvem que toma conta do que vemos, ouvimos, lemos,
acessamos, seja pelos grandes meios de comunicação ou, cada vez mais, pelas
mídias digitais, onde a boa e verdadeira informação não é o padrão. Somos
inundados, sistematicamente, por
informações na maior parte enviesadas, com um propósito nunca revelado. O pior
de tudo é que não se revelam os referentes e as fontes. Se criam ondas que
circulam sem controle. Mas o fato é que elas carregam seletividade de visão e
sobretudo de intenção.
Vou lembrar de algumas questões
fundamentais e decisivas para a democracia que ficam contaminadas. A primeira gira em torno ao “mercado” em
sentido amplo. Ele é uma lei férrea, ao menos é o que é difundido em todos os meios
de comunicação, como rádio, jornais, televisão,
e nas redes digitais. O mercado nunca é caracterizado como relação social de
trocas de bens e serviços entre desiguais onde sempre ganha o mais forte. Pelo
contrário, faz parecer que quem ganha mais é por mérito e, por isto, ganha mais.
A tal “meritocracia” esconde o fato que nesta relação onde tem ganhadores e
perdedores, como se fosse uma relação entre iguais, é uma consolidação não
questionável de relações desiguais. Não existe igualdade entre os humanos que
trocam nos mercados, pelo contrário, aí se completa plenamente a relação entre
desiguais. É assim porque a demanda e a procura fazem os preços subirem ou
baixarem. É isto que a maioria dos economistas falam, sem explicar realmente o
que está por trás: as relações de trabalho e exploração, onde sempre uns ganham
e outros perdem. Afinal, toda produção é social, é trabalho social condensado
nela. Por que então, uns lucram se apropriando do trabalho social coletivo,
acumulando sem limites.
A questão é complexa e nunca
podemos deixar de martelar, sem medo de errar, que todo produto, toda produção é
socialmente produzida, mas desigualmente apropriada. Traduzir isto em mensagem
é um desafio para nós. Temos que levantar uma bandeira de limite ou teto de
acumulação. Não podemos deixar que uns ganhem sem limites enquanto a maioria nem
ganha uma partilha do socialmente produzido para viver dignamente.
Temos que ter a coragem de
desmascarar o mercado e o mérito como regra. O mercado, em sua origem, era o
espaço de troca de bens e serviços. Virou regra manipulada pelos capitalistas
urbanos e rurais, em nome de um absurdo: o direito de se apropriar da produção
social porque tem o dinheiro para investir onde lucram mais, sem considerações
ao bem estar coletivo.
Nesta linha de reflexão, de forma
mais imediata, deveríamos enfrentar a lei férrea do austericídio que o
sujeito “mercado” – com muitos poucos votos, mas muito dinheiro para comprá-los
e fazer valer seus interesses na composição do poder estatal – impõe para o
orçamento e o financiamento das públicas, priorizando seus interesses de
acumulação. Nesta linha, além da pequena mudança no imposto de renda até ganhos
de R$ 5.000,00, não temos muita coisa a comemorar. Estamos, como cidadanias, emparedados
em termos políticos nesta questão da austeridade fiscal praticada pelo governo
e o tal Banco Central com sua autonomia. Ao menos devemos por isto na rua.
Temos muito bons analistas entre nós a respeito do emparedamento de
possibilidades de financiamento ecossocial devido ao austericídio. Precisamos
transformar seus argumentos em formas palatáveis de disputa de hegemonia junto
às grandes maiorias excluídas e pobres em nosso país.
De forma virtuosa temos a agenda,
surgida no seio das cidadanias, do fim da jornada de trabalho dos 6 dias de
trabalho por 1 de descanso, em nome da vida além do trabalho assalariado. Temos
que impor isto como uma questão democrática ecossocial incontornável.
Também temos a questão virtuosa levantada
pelos povos indígenas e tradicionais, afirmando que a prioridade nunca deveria
ser o agronegócio, mas a integridade natural, condição de vida. Está é uma
agenda exemplar para toda a cidadania brasileira, pois não se limita aos
territórios indígenas. É sobre a integridade do bem comum, da natureza para
todas e todos, diante das ameaças de extrativismos, desmatamentos, negócios sem
limite.
Uma outra frente fundamental é o
grau de contaminação da empatia social, pois a pregação da extrema direita
fascista nos faz perder a sensibilidade social diante da barbárie praticada no
dia a dia em nossa sociedade. Como lembra bem o Safatle, chacinas como no
Complexo do Alemão, como mais de uma centena de assassinados brutalmente por
policiais, mortos cujos nomes nem tiveram o direito de ser nomeados,
simplesmente corpos expostos. Pior ainda foi a reunião de apoio dos governadores
cúmplices com o inominável ex-governador do Rio. Isto já é uma política de
genocídio, que nunca poderá ser continuada e tolerada se queremos uma
democracia que valha a pena de se viver. O pior é que em maior ou menor grau, este
tipo de repressão assassina parece ter virado rotina e normalidade no país. Até
quando?
Enfim, limito-me a estes pontos
que me parecem mais agudos na disputa de hegemonia que temos neste ano, com as
eleições de outubro próximo. Só nos mesmos, como cidadanias com direito de
votar, poderemos fazer a diferença e apontar outro rumo. Mas não podemos ficar
numa atitude passiva de espera que os candidatos proponham algo. Desde já
devemos elencar as nossas condicionalidades para candidatos receberem nosso
voto.
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Nota: Gostaria de fazer um esclarecimento inicial
e um pedido de desculpas às minhas leitoras e meus leitores. Não pude fazer
postagens regulares durante praticamente um ano, pois estive tomado por um
contrato de consultoria, com prazos de entrega de produtos. Como foi sobre a
minha própria trajetória como ativista, tive um enorme trabalho de pesquisa em
documentos, registros de ocasiões e lugares, falas, artigos escritos, e
consultas a muita gente envolvida como cúmplice da caminhada. Foi uma tarefa
gratificante, a seu modo intensa. Espero, agora, retomar certa regularidade nas
minhas postagens no blog, a forma mais recente de contribuir com um ativismo por “outro mundo de
democracia ecossocial”, que ainda carrego vivo, chegando aos 81 anos de idade.