O Governo Federal há pouco tempo
anunciou um programa de bioeconomia para o Brasil. Parece algo bom, mas o foco
não é uma mudança estrutural. Trata-se de tirar partido do fato do Brasil ser
ainda detentor de grandes florestas e rica biodiversidade natural para explorar
num contexto de capitalismo globalizado. Uma coisa é extrativismo de produtos
naturais, algo que fazemos desde a conquista e colonização portuguesa, com a
extração destrutiva do “pau brasil” para o nascente capitalismo europeu.
Extrativismo intenso que nos legou a própria identidade nacional como Brasil,
país de lenhadores e de extrativismo florestal, como nos lembram sempre
intelectuais indígenas, para quem este território era a Pindorama (país das
palmeiras). O anúncio de um novo
programa de bioeconomia, no marco de vantagem comparativa no mercado
capitalista, nasce encurralada e de modo algum pode ser vista como mudança de
paradigma transformador.
Esta concepção de bioeconomia,
apesar do nome, não é nova. Há anos o Banco Mundial já havia demonstrado, em
estudos, que a floresta em pé é mais rentável economicamente, no marco
capitalista, do que o desmatamento que vinha sendo feito no Brasil. Mas, de uma
perspectiva ecossocial transformadora a questão central não é o mercado e sim a
integridade natural dos biomas, desenvolvendo formas de convivência com suas
dinâmicas, num mundo que caminha para uma catástrofe climática com o
capitalismo que prioriza a acumulação sem limites. Já sabemos o que significam as
florestas plantadas de eucalipto para celulose – uma bioeconomia extrativista e
devastadora –, que cria grandes “desertos verdes”, na correta definição de
ativistas contrários a tais florestas homogêneas com plantas exóticas. Além de
desmatar para plantar eucalipto, secam as nascentes e somem os pássaros e os
animais por falta de água e comida.
Na verdade, nem sei se a política
considera de algum modo os extrativismos virtuosos do coco de babaçu nativo, das
seringueiras e castanheiras em pé, da pesca artesanal com seu respeito ao
período de desova dos peixes. Mas em sintonia com uma perspectiva
transformadora ecossocial, caberia buscar uma produção agroecológica
diversificada, totalmente na contramão do agronegócio desmatador, com
agrotóxicos e contaminação das águas. Acho que é desejar muito, em nosso país
tão dependente do extrativismo e do agronegócio, que o programa de bioeconomia
proposto consiga mudar algo em nossa economia altamente predatória.
Bioeconomia em contexto
capitalista só foca na natureza como um ativo econômico e uma vantagem
comparativa do Brasil e não a regeneração de seus grandes biomas ameaçados pelo
extrativismo mineral e agrícola ao longo de séculos. Sem dúvida, as florestas
cheias de vida são base de produtos farmacêuticos e vale a pena preservá-las.
Mas não entram em consideração o papel dos grandes biomas na questão da mudança
climática. Parece uma virtude a produção
hidrelétrica, por exemplo, mas as grandes barragens em nossos rios são
devastadoras. O exemplo mais recente é a usina de Belo Monte, com grande
impacto em termos ecológicos e sociais, com expulsão de povos originários e
pescadores das margens do Xingu.
Ainda em preparação da
Conferência da ONU Rio+20, em 2012, escrevi um texto com perspectiva de um novo
paradigma civilizatório que denominei “biocivilização”, discutido em um evento
preparatório organizado pelo IBASE com
lideranças de grandes movimentos sociais mundiais participantes dos
eventos do Fórum Social Mundial. O foco não foi a economia em si, mas uma
perspectiva de mudança paradigmática nos modos de viver e reproduzir a vida, baseados
no cuidado, na convivência e no compartilhamento entre todas e todos e com
total respeito à integridade da natureza. Dada a diversidade natural e social,
se faz necessário pensar em “um mundo onde cabem muitos mundos”, na bela
expressão dos zapatistas mexicanos.
Num país do tamanho do Brasil em
território e população, seria um grande passo transformador se dar objetivos
mais estratégicos em termos de alcançar uma democracia ecossocial
transformadora, buscando a integridade da base da vida e os direitos iguais
para todas e todos. Chega de priorizar o “mercado”! Precisamos prioriza as
vidas em harmonia com as potencialidades do generoso território que nos cabe
cuidar, para nós mesmos e para as gerações futuras, tanto no Brasil como no
conjunto do Planeta. A nossa mãe comum, a “mãe natureza”, que nos acolhe e nos
dá vida, não aguenta mais ser tão vilipendiada!
Está na hora de sermos mais
radicais em relação com a dinâmica natural, ter mais cuidado, admirar mais suas
maravilhas, interagir com ela com cuidado e carinho. A exploração imediata do
que ela nos dá na forma predatória que a economia e os mercados impõem são um
caminho direto para o desastre. Além disto, não poderemos avançar mais no
enfrentamento da enorme injustiça social reinante entre nós, destruindo o que nos
é dado com suas múltiplas possibilidades de garantir plena vida a todas e
todos. Chega de sangrar o território que é a nossa casa!
Sei que temos enormes injustiças
entre nós mesmos. Pensamos pouco na injustiça que praticamos para as novas
gerações dependentes de uma economia com base no agronegócio e no extrativismo.
Dizer que este é o mercado e o que podemos tirar proveito dele é não ter
compromisso com transformações ecossociais que podem ser feitas e já não podem
esperar mais. Até quando vamos aguentar esta escravidão destrutiva do mercado capitalista?
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