quinta-feira, 28 de maio de 2026

O Princípio do Cuidado: Referência Paradigmática para Viver, Pensar e Agir no Planeta Terra

 O próximo dia 5 de junho foi instituído como o dia do meio ambiente. Isto me fez pensar o porquê de um dia se não existe vida, nenhuma forma de vida, sem relação com a natureza, orgânica e inorgânica, consciente ou inconscientemente. A noção científica de ecologia tenta dar conta disto como estudo das relações entre humanos e o meio ambiente (do grego oikos (casa) + logos (linguagem). Estamos diante do entender a nossa casa comum, a natureza, indispensável para viver. Por isto, cuidar é também conviver e compartilhar, princípios fundamentais do viver em coletividade e de bem com a natureza, com a preservação da sua complexa integridade de sistemas interdependentes.

Considero a concepção da natureza dos povos indígenas andinos de Pacha Mama  (Mãe Terra) como a visão mais integral, radical e sensível. A natureza é a Mãe Comum de todos os seres vivos. A Mãe a gente ama, cuida e defende, porque simplesmente não existiríamos sem ela. Estamos diante de um bem comum incontornável, que precisamos cuidar e zelar no dia a dia por sua integridade. Não existe vida possível sem o ar que respiramos, sem a água que bebemos, sem o alimento que comemos, que a natureza nós dá.  Dependemos totalmente do ciclo natural, com sol e chuva, ventos, geadas e nevascas, dias e noite, calor e frio, nascentes, rios, lagos e mares, geleiras e desertos, matas e campos, com sua biodiversidade. A rotação da terra em torno ao sol nos oferece estações e anos, numa sucessão de vida e morte, para dar lugar a outras vida e mortes... Não dá para deixar de se encantar e emocionar diante da Mãe Terra/Planeta Terra, desenvolvendo modos de viver nesta complexidade e gerando múltiplas linguagens, culturas, filosofias, religiões, relações e estruturas sociais.

No entanto, vivemos num dilema mortal: cuidamos ou destruímos como modos de nos relacionar com o bem comum Planeta Terra/Mãe Terra. O paradigma civilizatório dominante que desenvolvemos é: de um lado, de subordinação e discriminação de uns aos outros, de violência, dominação, guerras, exclusão e morte; e de outro, de sistemas extrativistas predatórios da natureza como base da economia (do grego oikonomia – administração da casa). Não podemos continuar a nos dominar e excluir uns aos outros e ter uma administração destrutiva da casa comum. Estamos diante de um dilema gigante: não podemos continuar com um modo de viver que implica dominar e matar, tanto entre humanos e humanos contra a natureza. Cuidar, como afirmei, implica em compartilhar e conviver entre todos e com a natureza. Isto implica ter como base virtuosa a interação entre todos os humanos e deles com os sistemas naturais que nos dão a vida.

Nosso modo de viver e reproduzir a vida – o paradigma civilizatório e sua base econômica – é de radical competição onde parece normal e aceitável que vençam os mais fortes. Aliás a teoria de Darwin, ainda vigente em muitos círculos , inspirado na nascente ciência econômica capitalista, entendeu a integridade da natureza como sistemas competitivos onde só os mais fortes venceriam. Felizmente, a biologia hoje fala na importância de todos, dos mais minúsculos animais e vegetais como interdependentes, onde a cooperação é a regra dominante. É com esta visão que devemos entender o meio ambiente. Afinal, toda a vida supõe cooperação.  Hoje sabemos que destruir matas para plantar grãos e confinar gado, dependendo de agrotóxicos, é destruir mais do que produzir alimentos, pois as abelhas morrem e deixar de polonizar as plantas, as minhocas e larvas deixam de arejar os solos berço das plantas e assim se fecha o ciclo. As matas regulam e contribuem para os sistemas climáticos e das águas. Mais, destruir matas milenares libera micróbios que vivem bem por lá, que agredidos no meio em que vivem podem ser altamente destrutivos, basta lembrarmos da Covid com sua devastação e agora do Ébola. Tais exemplos recentes são o alerta, como a própria mudança climática, com eventos mais extremos, dado o extrativismo e a queima de energia fóssil que move a economia dominante e o nosso modo de vida destrutivo.

A evolução é parte do viver, mas não pode ser na base da destruição e dominação, de exclusões e miséria, de colonialismos e discriminações, centros luxuosos e de periferias sofridas. Hoje, como vibrante humanidade, se impõe a mudança no modo de produzirmos e vivermos em coletividade humana priorizando os direitos iguais e os bens comuns. Competição e destruição na base do paradigma dominante que temos só pode anunciar o desastre e, no limite, a morte.

Ser radical na defesa da integridade dos sistemas ecológicos, cuidando, convivendo e compartilhando entre nós mesmos e com todos os seres vivos é o único caminho virtuoso que pode nos dar um futuro como humanidade. Festejemos a maravilha da nossa mãe comum, Mãe Terra!

sábado, 16 de maio de 2026

 

Disputar Hegemonia Democrática Virtuosa

Estamos em ano de eleições estratégicas, que podem definir se vamos conseguir sair de um estado de “encurralamento democrático” e avançar na construção de uma democracia mais virtuosa ou se, pelo contrário, voltaremos a uma crise institucional de consequências imprevisíveis, submetidos a uma direita extrema em contexto de um capitalismo negador de direitos básicos.

Celebrar a nossa capacidade de resistir à onda da direita antidemocrática, sem mudanças que nos conduzam para uma democracia ecossocial transformadora, de direitos iguais na diversidade, com cuidado, convivência e compartilhamento, não aponta um futuro melhor, só impede uma deterioração irreversível. A vivência em situação de violência sistemática já é uma “normalidade” para as grandes “periferias” das cidades e dos campos.  Até quando? Poder conviver na diversidade do que somos, gozando de direitos iguais, não é uma impossibilidade, mas nunca será realidade sem um projeto de poder político democrático transformador.

Temos resistido muito. Ou, de outro modo, nos defendemos da direita e sua pregação, mais do que levantamos bandeiras de transformação democrática ecossocial possível desde o aqui e o agora. Para disputar hegemonia é necessário criar um projeto estratégico alternativo. Podemos evitar o pior, como aliás temos feito. Mas transformar e abrir horizontes de esperança exige mais do que uma certa maioria eleitoral nas eleições de final do ano.

A maioria eleitoral – parâmetro institucional – se expressa nos votos depositados na urna. Mas a vontade política de votar e em quem votar se cria com disputa de hegemonia muito anos da eleição em si e com propostas de governo e de representantes na Câmara e Senado que apontam para um processo de avanço na conquista e garantia de direitos, com políticas adequadas para implementá-los.

A institucionalidade democrática conquistada em 1988 – importante para o recomeço de uma nova história após os horrores da ditadura militar – foi mais uma nova base fundamental, mas não o fim de novas conquistas possíveis e que continuam necessárias para a inclusão de todas e todos no gozo dos direitos fundamentais de cidadania. Ela só foi possível pelo ativismo cidadão nas ruas naquela conjuntura histórica, mas as demandas eram muito mais ousadas. Não levamos os criminosos da ditadura para as prisões e nem evitamos possíveis aventuras ditatoriais futuras, como foi o janeiro de 2023, que nos fez reféns dos humores do STF, salvaguarda da institucionalidade sempre ameaçada pelo Congresso que temos e o núcleo de uma direita autoritária capaz de destruir tudo que lembre democracia.

Em minhas análises e ativismo considero que, sim, temos uma base mínima democrática, mas muitas conquistas – um começo apenas – podem ser desmanteladas. As frustrações se acumulam. Defino a nossa situação como de uma democracia em processo lento e pouco transformado, não de avanços substantivos. Os pilares  do encurralamento da democracia estão basicamente no “centrão”  e na total submissão ao sujeito engravatado “chamado mercado”. O “centrão” ( com letra minúscula mesmo!) mama nas emendas parlamentares para seus redutos eleitorais, com compra de votos e corrupção desavergonhada (lembra o velho “coronelismo” da primeira República)  no controle do Poder Legislativo. O “mercado” expressa a seu modo a hegemonia do capitalismo neoliberal globalizado, que prioriza o “austericídio” fiscal do Estado em favor dos juros da dívida – o bolso daquela minoria de 1% e especuladores internacionais. Financiar políticas públicas para garantir direitos iguais  e o cuidado com gente e a natureza é com o que sobra no orçamento.  Na verdade, o “encurralamento democrático” é o efeito somado destes dois cânceres destrutivos. Até quando?

A democracia não é um fim em si mesmo, mas um modo de viver e conviver, apontando futuros possíveis. Todo mundo sabe que nada se faz de um dia para outro, pois o que se busca em democracia são formas e processos virtuosos que apontam horizontes melhores, desde aqui e agora. Mais, nas democracias deveria prevalecer o poder das cidadanias, tanto votando como participando ativamente na definição e implementação das políticas públicas. O fato é que estamos longe de tudo isto. Mas mais importante é que ou a vibrante diversidade de modos de ser cidadanias assume seu papel ou, na melhor aposta, ficaremos no marasmo atual e contentes com pequenas vitórias, nada de novos caminhos, só evitando o pior.

Nunca é tarde reagir, mas também não dá para ficar esperando que surjam salvadores da pátria. Cabe a nós mesmos, cidadanias diversas, desbravar caminhos mais promissores e que semeiem esperança para as maiorias sofridas de nosso país, com tantas mazelas e exclusões enraizadas, sobretudo nas periferias urbanas e rurais. Não é meu objetivo tratar delas, pois no dia a dia são notícias, até de grandes meios de comunicação e mídias sociais que tentam  dominar o que pensamos e discutimos. A verdade é que as injustiças não é possível deixar de ver ou fugir. Estão simplesmente visíveis, mas nem sempre sensibilizam e geram compaixão e solidariedade.

É possível, sim, sair deste “estado”, mas precisamos nos organizar para isto. Até agora as polícias, geridas pelo Estado em sua institucionalidade, geram mais insegurança do que segurança. Como cidadanias temos que reconhecer que o “desempate” virá de grandes movimentos de cidadania ou não virá. Por melhor que possam ser os candidatos eles dependem da conquista da vontade cidadã. Por isto, precisamos disputar o espaço público das ruas, avenidas, praças, bares, até mesmo da praia. Nosso voto conta, mas temos uma disputa de hegemonia a fazer bem antes do dia de votar. Disputar hegemonia é algo que precisa ser tarefa de cidadanias no nível da sociedade civil, antes de votar e depois para fazer cumprir os compromissos de candidatos com bandeiras de cidadania. Temos o exemplo virtuoso do movimento VAT – Vida Além do Trabalho, com a agenda de 5 por 2. Surgiu do “povão” e já virou projeto de lei no Congresso. Mas como as agendas virtuosas de diferentes movimentos sociais podem ir além de ser notícia e animar grandes coalizões cidadãs pela país, nos campos e cidades?  E a agenda de segurança, vamos deixar para o Estado resolver? Ou uma agenda mais virtuosa de participação social na definição de políticas sociais, econômicas e ambientais vamos simplesmente esperar pela “sensibilidade” dos eleitos que nos vão representar nas esferas estatais. Ou a participação e a cobrança de efetividade nas mudanças por mais direitos e cuidado com a gente e a natureza é nossa agenda como cidadanias ou nunca passará de eventuais “consultas” e da boa vontade dos eleitos, como aconteceu nestes anos, até com governos “progressistas”. Não tenho dúvidas que é melhor com eles do que sem eles, mas é pouco, muito pouco.

A conjuntura parece adversa, ao menos é o que expressam as pesquisas eleitorais e os grandes meios de comunicação martelam. É um sinal, mas longe de ser uma verdade incontornável. Como pesquisador social sei que os poucos entrevistados nas sondagens podem ser induzidos, pois tive experiência pessoal de entrevistados perguntarem se acertaram nas respostas. Ou seja, na hora de depositar o voto todas e todos, de algum modo, somos influenciados pelo dito e martelado sistematicamente. Mas, cabe  a nós explorar agendas no chão da sociedade civil. Como diz o grande analista político, Gramsci, a relação de forças políticas se faz na disputa de hegemonia. E ela se expressa, pelo voto, na correlação de “forças militares”, como o autor define o poder estatal.

Nunca é tarde começar. Mas precisamos olhar menos para o Estado e mais para a sociedade civil. Devemos cobrar ousadia democrática de nossos candidatos, mais do que desculpas pelo que deixaram de fazer “por causa da realidade do poder”. Já esperamos demais. Vamos disputar processos mais virtuosos nos territórios em que vivemos!

terça-feira, 5 de maio de 2026

Tem Virtude Um Programa de Bioeconomia?


O Governo Federal há pouco tempo anunciou um programa de bioeconomia para o Brasil. Parece algo bom, mas o foco não é uma mudança estrutural. Trata-se de tirar partido do fato do Brasil ser ainda detentor de grandes florestas e rica biodiversidade natural para explorar num contexto de capitalismo globalizado. Uma coisa é extrativismo de produtos naturais, algo que fazemos desde a conquista e colonização portuguesa, com a extração destrutiva do “pau brasil” para o nascente capitalismo europeu. Extrativismo intenso que nos legou a própria identidade nacional como Brasil, país de lenhadores e de extrativismo florestal, como nos lembram sempre intelectuais indígenas, para quem este território era a Pindorama (país das palmeiras).  O anúncio de um novo programa de bioeconomia, no marco de vantagem comparativa no mercado capitalista, nasce encurralada e de modo algum pode ser vista como mudança de paradigma transformador.

Esta concepção de bioeconomia, apesar do nome, não é nova. Há anos o Banco Mundial já havia demonstrado, em estudos, que a floresta em pé é mais rentável economicamente, no marco capitalista, do que o desmatamento que vinha sendo feito no Brasil. Mas, de uma perspectiva ecossocial transformadora a questão central não é o mercado e sim a integridade natural dos biomas, desenvolvendo formas de convivência com suas dinâmicas, num mundo que caminha para uma catástrofe climática com o capitalismo que prioriza a acumulação sem limites. Já sabemos o que significam as florestas plantadas de eucalipto para celulose – uma bioeconomia extrativista e devastadora –, que cria grandes “desertos verdes”, na correta definição de ativistas contrários a tais florestas homogêneas com plantas exóticas. Além de desmatar para plantar eucalipto, secam as nascentes e somem os pássaros e os animais por falta de água e comida.

Na verdade, nem sei se a política considera de algum modo os extrativismos virtuosos do coco de babaçu nativo, das seringueiras e castanheiras em pé, da pesca artesanal com seu respeito ao período de desova dos peixes. Mas em sintonia com uma perspectiva transformadora ecossocial, caberia buscar uma produção agroecológica diversificada, totalmente na contramão do agronegócio desmatador, com agrotóxicos e contaminação das águas. Acho que é desejar muito, em nosso país tão dependente do extrativismo e do agronegócio, que o programa de bioeconomia proposto consiga mudar algo em nossa economia altamente predatória.

Bioeconomia em contexto capitalista só foca na natureza como um ativo econômico e uma vantagem comparativa do Brasil e não a regeneração de seus grandes biomas ameaçados pelo extrativismo mineral e agrícola ao longo de séculos. Sem dúvida, as florestas cheias de vida são base de produtos farmacêuticos e vale a pena preservá-las. Mas não entram em consideração o papel dos grandes biomas na questão da mudança climática.  Parece uma virtude a produção hidrelétrica, por exemplo, mas as grandes barragens em nossos rios são devastadoras. O exemplo mais recente é a usina de Belo Monte, com grande impacto em termos ecológicos e sociais, com expulsão de povos originários e pescadores das margens do Xingu.

Ainda em preparação da Conferência da ONU Rio+20, em 2012, escrevi um texto com perspectiva de um novo paradigma civilizatório que denominei “biocivilização”, discutido em um evento preparatório organizado pelo IBASE com  lideranças de grandes movimentos sociais mundiais participantes dos eventos do Fórum Social Mundial. O foco não foi a economia em si, mas uma perspectiva de mudança paradigmática nos modos de viver e reproduzir a vida, baseados no cuidado, na convivência e no compartilhamento entre todas e todos e com total respeito à integridade da natureza. Dada a diversidade natural e social, se faz necessário pensar em “um mundo onde cabem muitos mundos”, na bela expressão dos zapatistas mexicanos.

Num país do tamanho do Brasil em território e população, seria um grande passo transformador se dar objetivos mais estratégicos em termos de alcançar uma democracia ecossocial transformadora, buscando a integridade da base da vida e os direitos iguais para todas e todos. Chega de priorizar o “mercado”! Precisamos prioriza as vidas em harmonia com as potencialidades do generoso território que nos cabe cuidar, para nós mesmos e para as gerações futuras, tanto no Brasil como no conjunto do Planeta. A nossa mãe comum, a “mãe natureza”, que nos acolhe e nos dá vida, não aguenta mais ser tão vilipendiada!

Está na hora de sermos mais radicais em relação com a dinâmica natural, ter mais cuidado, admirar mais suas maravilhas, interagir com ela com cuidado e carinho. A exploração imediata do que ela nos dá na forma predatória que a economia e os mercados impõem são um caminho direto para o desastre. Além disto, não poderemos avançar mais no enfrentamento da enorme injustiça social reinante entre nós, destruindo o que nos é dado com suas múltiplas possibilidades de garantir plena vida a todas e todos. Chega de sangrar o território que é a nossa casa!

Sei que temos enormes injustiças entre nós mesmos. Pensamos pouco na injustiça que praticamos para as novas gerações dependentes de uma economia com base no agronegócio e no extrativismo. Dizer que este é o mercado e o que podemos tirar proveito dele é não ter compromisso com transformações ecossociais que podem ser feitas e já não podem esperar mais. Até quando vamos aguentar esta escravidão destrutiva do mercado capitalista?