terça-feira, 5 de maio de 2026

Tem Virtude Um Programa de Bioeconomia?


O Governo Federal há pouco tempo anunciou um programa de bioeconomia para o Brasil. Parece algo bom, mas o foco não é uma mudança estrutural. Trata-se de tirar partido do fato do Brasil ser ainda detentor de grandes florestas e rica biodiversidade natural para explorar num contexto de capitalismo globalizado. Uma coisa é extrativismo de produtos naturais, algo que fazemos desde a conquista e colonização portuguesa, com a extração destrutiva do “pau brasil” para o nascente capitalismo europeu. Extrativismo intenso que nos legou a própria identidade nacional como Brasil, país de lenhadores e de extrativismo florestal, como nos lembram sempre intelectuais indígenas, para quem este território era a Pindorama (país das palmeiras).  O anúncio de um novo programa de bioeconomia, no marco de vantagem comparativa no mercado capitalista, nasce encurralada e de modo algum pode ser vista como mudança de paradigma transformador.

Esta concepção de bioeconomia, apesar do nome, não é nova. Há anos o Banco Mundial já havia demonstrado, em estudos, que a floresta em pé é mais rentável economicamente, no marco capitalista, do que o desmatamento que vinha sendo feito no Brasil. Mas, de uma perspectiva ecossocial transformadora a questão central não é o mercado e sim a integridade natural dos biomas, desenvolvendo formas de convivência com suas dinâmicas, num mundo que caminha para uma catástrofe climática com o capitalismo que prioriza a acumulação sem limites. Já sabemos o que significam as florestas plantadas de eucalipto para celulose – uma bioeconomia extrativista e devastadora –, que cria grandes “desertos verdes”, na correta definição de ativistas contrários a tais florestas homogêneas com plantas exóticas. Além de desmatar para plantar eucalipto, secam as nascentes e somem os pássaros e os animais por falta de água e comida.

Na verdade, nem sei se a política considera de algum modo os extrativismos virtuosos do coco de babaçu nativo, das seringueiras e castanheiras em pé, da pesca artesanal com seu respeito ao período de desova dos peixes. Mas em sintonia com uma perspectiva transformadora ecossocial, caberia buscar uma produção agroecológica diversificada, totalmente na contramão do agronegócio desmatador, com agrotóxicos e contaminação das águas. Acho que é desejar muito, em nosso país tão dependente do extrativismo e do agronegócio, que o programa de bioeconomia proposto consiga mudar algo em nossa economia altamente predatória.

Bioeconomia em contexto capitalista só foca na natureza como um ativo econômico e uma vantagem comparativa do Brasil e não a regeneração de seus grandes biomas ameaçados pelo extrativismo mineral e agrícola ao longo de séculos. Sem dúvida, as florestas cheias de vida são base de produtos farmacêuticos e vale a pena preservá-las. Mas não entram em consideração o papel dos grandes biomas na questão da mudança climática.  Parece uma virtude a produção hidrelétrica, por exemplo, mas as grandes barragens em nossos rios são devastadoras. O exemplo mais recente é a usina de Belo Monte, com grande impacto em termos ecológicos e sociais, com expulsão de povos originários e pescadores das margens do Xingu.

Ainda em preparação da Conferência da ONU Rio+20, em 2012, escrevi um texto com perspectiva de um novo paradigma civilizatório que denominei “biocivilização”, discutido em um evento preparatório organizado pelo IBASE com  lideranças de grandes movimentos sociais mundiais participantes dos eventos do Fórum Social Mundial. O foco não foi a economia em si, mas uma perspectiva de mudança paradigmática nos modos de viver e reproduzir a vida, baseados no cuidado, na convivência e no compartilhamento entre todas e todos e com total respeito à integridade da natureza. Dada a diversidade natural e social, se faz necessário pensar em “um mundo onde cabem muitos mundos”, na bela expressão dos zapatistas mexicanos.

Num país do tamanho do Brasil em território e população, seria um grande passo transformador se dar objetivos mais estratégicos em termos de alcançar uma democracia ecossocial transformadora, buscando a integridade da base da vida e os direitos iguais para todas e todos. Chega de priorizar o “mercado”! Precisamos prioriza as vidas em harmonia com as potencialidades do generoso território que nos cabe cuidar, para nós mesmos e para as gerações futuras, tanto no Brasil como no conjunto do Planeta. A nossa mãe comum, a “mãe natureza”, que nos acolhe e nos dá vida, não aguenta mais ser tão vilipendiada!

Está na hora de sermos mais radicais em relação com a dinâmica natural, ter mais cuidado, admirar mais suas maravilhas, interagir com ela com cuidado e carinho. A exploração imediata do que ela nos dá na forma predatória que a economia e os mercados impõem são um caminho direto para o desastre. Além disto, não poderemos avançar mais no enfrentamento da enorme injustiça social reinante entre nós, destruindo o que nos é dado com suas múltiplas possibilidades de garantir plena vida a todas e todos. Chega de sangrar o território que é a nossa casa!

Sei que temos enormes injustiças entre nós mesmos. Pensamos pouco na injustiça que praticamos para as novas gerações dependentes de uma economia com base no agronegócio e no extrativismo. Dizer que este é o mercado e o que podemos tirar proveito dele é não ter compromisso com transformações ecossociais que podem ser feitas e já não podem esperar mais. Até quando vamos aguentar esta escravidão destrutiva do mercado capitalista?