O próximo dia 5 de junho foi instituído como o dia do meio ambiente. Isto me fez pensar o porquê de um dia se não existe vida, nenhuma forma de vida, sem relação com a natureza, orgânica e inorgânica, consciente ou inconscientemente. A noção científica de ecologia tenta dar conta disto como estudo das relações entre humanos e o meio ambiente (do grego oikos (casa) + logos (linguagem). Estamos diante do entender a nossa casa comum, a natureza, indispensável para viver. Por isto, cuidar é também conviver e compartilhar, princípios fundamentais do viver em coletividade e de bem com a natureza, com a preservação da sua complexa integridade de sistemas interdependentes.
Considero a concepção da natureza
dos povos indígenas andinos de Pacha Mama (Mãe Terra) como a visão mais integral,
radical e sensível. A natureza é a Mãe Comum de todos os seres vivos. A Mãe a
gente ama, cuida e defende, porque simplesmente não existiríamos sem ela.
Estamos diante de um bem comum incontornável, que precisamos cuidar e zelar no
dia a dia por sua integridade. Não existe vida possível sem o ar que
respiramos, sem a água que bebemos, sem o alimento que comemos, que a natureza
nós dá. Dependemos totalmente do ciclo
natural, com sol e chuva, ventos, geadas e nevascas, dias e noite, calor e frio,
nascentes, rios, lagos e mares, geleiras e desertos, matas e campos, com sua
biodiversidade. A rotação da terra em torno ao sol nos oferece estações e anos,
numa sucessão de vida e morte, para dar lugar a outras vida e mortes... Não dá
para deixar de se encantar e emocionar diante da Mãe Terra/Planeta Terra,
desenvolvendo modos de viver nesta complexidade e gerando múltiplas linguagens,
culturas, filosofias, religiões, relações e estruturas sociais.
No entanto, vivemos num dilema
mortal: cuidamos ou destruímos como modos de
nos relacionar com o bem comum Planeta Terra/Mãe Terra. O paradigma civilizatório
dominante que desenvolvemos é: de um lado, de subordinação e discriminação de
uns aos outros, de violência, dominação, guerras, exclusão e morte; e de outro,
de sistemas extrativistas predatórios da natureza como base da economia (do
grego oikonomia – administração da casa). Não podemos continuar a nos dominar
e excluir uns aos outros e ter uma administração destrutiva da casa comum. Estamos
diante de um dilema gigante: não podemos continuar com um modo de viver que
implica dominar e matar, tanto entre humanos e humanos
contra a natureza. Cuidar, como afirmei, implica em compartilhar e conviver
entre todos e com a natureza. Isto implica ter
como base virtuosa a interação entre todos os humanos e deles com os sistemas
naturais que nos dão a vida.
Nosso modo de viver e reproduzir
a vida – o paradigma civilizatório e sua base econômica – é de radical
competição onde parece normal e aceitável que vençam os mais fortes. Aliás a
teoria de Darwin, ainda vigente em muitos círculos , inspirado na nascente
ciência econômica capitalista, entendeu a integridade da natureza como sistemas
competitivos onde só os mais fortes venceriam. Felizmente, a biologia hoje fala
na importância de todos, dos mais minúsculos animais e vegetais como
interdependentes, onde a cooperação é a regra dominante. É com esta visão que
devemos entender o meio ambiente. Afinal, toda a vida supõe cooperação. Hoje
sabemos que destruir matas para plantar grãos e confinar gado, dependendo de
agrotóxicos, é destruir mais do que produzir alimentos, pois as abelhas morrem
e deixar de polonizar as plantas, as minhocas e larvas deixam de arejar os
solos berço das plantas e assim se fecha o ciclo. As matas regulam e contribuem
para os sistemas climáticos e das águas. Mais, destruir matas milenares libera
micróbios que vivem bem por lá, que agredidos no meio em que vivem podem ser altamente
destrutivos, basta lembrarmos da Covid com sua devastação e agora do Ébola. Tais
exemplos recentes são o alerta, como a própria mudança climática, com eventos
mais extremos, dado o extrativismo e a queima de energia fóssil que move a
economia dominante e o nosso modo de vida destrutivo.
A evolução é parte do viver, mas
não pode ser na base da destruição e dominação, de exclusões e miséria, de
colonialismos e discriminações, centros luxuosos e de periferias sofridas. Hoje,
como vibrante humanidade, se impõe a mudança no modo de produzirmos e vivermos
em coletividade humana priorizando os direitos iguais e os bens comuns. Competição
e destruição na base do paradigma dominante que temos só pode anunciar o
desastre e, no limite, a morte.
Ser radical na defesa da integridade
dos sistemas ecológicos, cuidando, convivendo e compartilhando entre nós mesmos
e com todos os seres vivos é o único caminho virtuoso que pode nos dar um
futuro como humanidade. Festejemos a maravilha da nossa mãe comum, Mãe Terra!
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