quarta-feira, 24 de junho de 2026

Mudança Climática Como Questão Política

 

Apesar das evidências, cada vez mais robustas, as direitas autoritárias espalhadas pelo mundo, com suas diferenças, tem em comum uma sistemática negação da grande questão da mudança climática no nosso bem comum, o Planeta Terra, como se não fosse algo fundamentado cientificamente. Atitude semelhante aconteceu com a pandemia da Covid, que ceifou tantas vidas, e foi definida como uma “gripezinha”.

Fantasmas e monstros são algo que a literatura trata até de forma criativa, estimulando a imaginação. Mas outra coisa é fantasiar um fenômeno, cientificamente  provado, como a mudança do clima, afirmando que é apenas  uma ameaça  de ordem política e enganosa, não um processo natural desencadeado pela ação humana. Isto apesar de que as notícias de eventos climáticos extremos – temporais, enchentes, ondas de calor insuportáveis – estão presentes em qualquer parte do mundo, com grandes estragos e perda de vidas humanas. Ou seja, o clima é um dos grandes sistemas naturais reguladores das condições da vida na Terra. Mas já afetamos a sua integridade e ultrapassamos os limites. E sua causa é sobretudo os modos de nos relacionar com a generosidade da natureza, especialmente a economia extrativista, a energia fóssil, modos de consumo e vida, com prioridade de carros individuais para a mobilidade,  do capitalismo que temos, a serviço da acumulação de riqueza de uma parcela minúscula de donos de tudo.

Trago este tema para reflexão porque ele se tornou algo que turbina o autoritarismo reacionário, em suas múltiplas modalidades, presente em praticamente todos os países.[1] Precisamos ter claro o fato, também evidente e robustamente provado  pela ciência, que o problema é de todos mas de forma diferenciada. Uns são mais responsáveis do que outros. Ou seja, a mudança climática já ultrapassou o limite e virou uma questão política de disputa e negação da desigualdade social, não reconhecida como tal por amplas forças reacionárias e autoritárias, como uma onda mundial, que as negam e tentam impedir qualquer medida de mitigação ou enfrentamento direto das questões climáticas.

As formas sob as quais as direitas pregam a negação da mudança climática tem muitas expressões, que precisamos levar em consideração nas análises e nas lutas democráticas. Primeiro, as direitas autoritárias tentam negar a mudança climática  comprovada pela ciência do clima, como se fosse uma agenda inventada pelas esquerdas. Talvez este esforço de culpar as esquerdas  faça parte de todas as direitas autoritárias em sua diversidade, como se a ciência climática fosse invenção de esquerdas pelo mundo e não diagnóstico científico, tentando desqualificar a própria ciência e a capacidade dos cientistas em diagnosticar as dinâmicas que movem a natureza. Tal negacionismo impede que se definam agendas políticas de enfrentamento e mudança necessária nos países, tanto na economia como nos modos de viver insustentáveis.

Mas não podemos ignorar que as direitas autoritárias, na falta de argumentos mais robustos para o negacionismo que as orientam – como o lepenismo na França  - até culpam os outros, como os migrantes, que não teriam  cuidado com a natureza do país que os acolhe, pois são nômades, não respeitam o território que não é deles.

Mas há ainda as direitas que vem na implementação de medidas contra a mudança climática como a causa do crescimento da injustiça social e econômica. O melhor exemplo de tais direitas autoritárias contra mudança climática é a agenda da direita americana, especialmente com o Trump, com a sua proposta do MEGA – Make America Great Again.

São muitas as formas de negar. Com a redes digitais ficou facilitado difundir em ampla escala com notícias falsas – as fakenews. Por sinal, no mundo inteiro as direitas agem colonizando as redes digitais, com muito mais habilidade que as esquerdas democráticas. O caso do Brasil é emblemático, onde a direita autoritária domina.

Enfim, não é só pelo voto que poderemos impedir o avanço das extremas direitas. Disputar hegemonia democrática, hoje, passa necessariamente pelas redes digitais, com alcance sem igual e muito maior do que qualquer outro veículo, como televisão, por exemplo. Jornais são menos difusores de notícias  fundadas e mais de artigos de pensadores e analistas de direita.

Concluo afirmando que a disputa política eleitoral está dependendo cada vez menos de comícios e mais de quem for mais hábil no pantanoso terreno das mídias digitais. Devemos enfrentar a questão ambiental do cuidado, compartilhamento e convivência entre todas e todos e com a natureza, em sua fantástica diversidade natural e social,  dando maior atenção às redes digitais e impedindo  que as direitas autoritárias sejam a referência  predominante.  



[1] Estou lendo uma livro de Miguel Urbán, com o título de Trumpismos: Neoliberais e autoritários. Neoliberalismo da direita radical. (na versão em português). São Paulo: Usina Editorial – Fundação Lauro Campos e Marielle Franco, 2025. O autor faz uma ampla radiografia política da onda mundial de direita e suas especificidades, mas ainda é pouco conhecido entre nós.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Educação Pública Contaminada pelo Autoritarismo

 Ando pensando muito em algo impossível de aceitar em nosso meio: as escolas “cívico-militares” como proposta de política pública de educação infanto-juvenil por parte de alguns governos estaduais. Isto deve ser combatido como aberração e um mal destruidor de sonhos e desejos. Estamos diante de uma agressão ao direito à educação para novas gerações e para que tenham acesso e usufruto de um grande bem comum da coletividade: cuidado mútuo, convivência, compartilhamento de bens territoriais, materiais e culturais, indispensáveis ao viver e gozar direitos iguais para as novas gerações. Sim, somos diversos e isto é também um direito, pois somos diferentes  em muita coisa. Aliás, o direito à diversidade é parte de ser iguais apesar de tudo. As escolas cívico-militares são uma aberração política e uma forma de negar o que propõe: atender ao direito individual e coletivo de todas as crianças de ter acesso à educação de qualidade para praticar e usufruir direitos iguais numa  democracia que vale a pena ser vivida como forma de vida em coletividade. Educação cívico-militar é uma aberração autoritária, tanto na concepção  como na prática em relação às novas gerações.

Essas escolas cívico-militares são uma monstruosidade de política pública visando moldar crianças e adolescentes para integração passiva em sociedade autoritária. Aliás, esta é uma das formas em que a nova onda autoritária contamina as sociedades no mundo inteiro, com governos que impõe políticas reacionárias. Para onde a gente olha, sob formas matizadas, estamos numa fase que autoritarismo reacionário, produto da própria globalização capitalista em crise sistêmica. Ou seja, o velho mundo está produzindo monstros para se salvar. No mundo inteiro, estamos diante de versões de intolerância, seja contra migrantes vistos e tratados como um mal destrutivo da identidade nacional, assim como contaminando os movimentos e agenda feminista com uma suposta “ideologia de gênero”. Há uma total intolerância contra qualquer afirmação de igualdade e de direitos. Prega-se a islamofobia e praticam-se genocídios em grande escala em nome de “Deus, Pátria, Família”. Nega-se a mudança climática e ignora-se a monstruosidade da riqueza acumulada pelos 1% de super-ricos, como se fosse por mérito deles. O pior de tudo que contaminam todo o debate sobre “outro mundo possível”.

Como ativista, sempre me inspirei em ideários libertadores, baseados em princípios de cuidado, convivência e compartilhamento entre todas e todos e em relação ao bem comum natural, que nos dá a vida. Todos os autoritarismos reacionários negam a mudança climática.

Precisamos recuperar nossa capacidade de cidadanias ativas para criar, desde os territórios em que levamos a vida, imaginários de que seja possível ter “muitos e diversos mundos” que cabem no mesmo mundo. Temos ao nosso alcance muitas experiências que são virtuosas e podem ser nossa base para se contrapor ao mundo imaginado pelos diversos autoritarismos reacionários. Paulo Freire nos deixou um legado fundamental, que muita gente nem conhece, mas que nossas crianças e gerações futuras podem usufruir. Trata-se de se emancipar e praticar a liberdade de pensamento e ação, condições indispensáveis para outro futuro que valha a pena ser vivido.

Tomando o caso da educação e todo o esforço necessário para combater fundamentalismo autoritários e negadores de direitos, como brasileiras e brasileiros temos um dos mais criativos e ousados intelectuais que nos podem ajudar. É o nosso Paulo Freire e sua proposta de educação como prática da liberdade, de emancipação e de empoderamento, que parece um tanto esquecido. Vamos nos inspirar em seu legado para libertar nossas crianças e eles poderem sonhar com um mundo melhor. Não podemos esperar! Vamos disputar o sentido de uma educação libertadora,   para que as novas gerações façam um mundo melhor do que nós estamos fazendo!