Ando pensando muito em algo impossível de aceitar em nosso meio: as escolas “cívico-militares” como proposta de política pública de educação infanto-juvenil por parte de alguns governos estaduais. Isto deve ser combatido como aberração e um mal destruidor de sonhos e desejos. Estamos diante de uma agressão ao direito à educação para novas gerações e para que tenham acesso e usufruto de um grande bem comum da coletividade: cuidado mútuo, convivência, compartilhamento de bens territoriais, materiais e culturais, indispensáveis ao viver e gozar direitos iguais para as novas gerações. Sim, somos diversos e isto é também um direito, pois somos diferentes em muita coisa. Aliás, o direito à diversidade é parte de ser iguais apesar de tudo. As escolas cívico-militares são uma aberração política e uma forma de negar o que propõe: atender ao direito individual e coletivo de todas as crianças de ter acesso à educação de qualidade para praticar e usufruir direitos iguais numa democracia que vale a pena ser vivida como forma de vida em coletividade. Educação cívico-militar é uma aberração autoritária, tanto na concepção como na prática em relação às novas gerações.
Essas escolas cívico-militares
são uma monstruosidade de política pública visando moldar crianças e
adolescentes para integração passiva em sociedade autoritária. Aliás, esta é
uma das formas em que a nova onda autoritária contamina as sociedades no mundo
inteiro, com governos que impõe políticas reacionárias. Para onde a gente olha,
sob formas matizadas, estamos numa fase que autoritarismo reacionário, produto
da própria globalização capitalista em crise sistêmica. Ou seja, o velho mundo
está produzindo monstros para se salvar. No mundo inteiro, estamos diante de
versões de intolerância, seja contra migrantes vistos e tratados como um mal
destrutivo da identidade nacional, assim como contaminando os movimentos e
agenda feminista com uma suposta “ideologia de gênero”. Há uma total
intolerância contra qualquer afirmação de igualdade e de direitos. Prega-se a
islamofobia e praticam-se genocídios em grande escala em nome de “Deus, Pátria,
Família”. Nega-se a mudança climática e ignora-se a monstruosidade da riqueza
acumulada pelos 1% de super-ricos, como se fosse por mérito deles. O pior de
tudo que contaminam todo o debate sobre “outro mundo possível”.
Como ativista, sempre me inspirei
em ideários libertadores, baseados em princípios de cuidado, convivência e
compartilhamento entre todas e todos e em relação ao bem comum natural, que nos
dá a vida. Todos os autoritarismos reacionários negam a mudança climática.
Precisamos recuperar nossa
capacidade de cidadanias ativas para criar, desde os territórios em que levamos
a vida, imaginários de que seja possível ter “muitos e diversos mundos” que
cabem no mesmo mundo. Temos ao nosso alcance muitas experiências que são
virtuosas e podem ser nossa base para se contrapor ao mundo imaginado pelos
diversos autoritarismos reacionários. Paulo Freire nos deixou um legado
fundamental, que muita gente nem conhece, mas que nossas crianças e gerações
futuras podem usufruir. Trata-se de se emancipar e praticar a liberdade de
pensamento e ação, condições indispensáveis para outro futuro que valha a pena
ser vivido.
Tomando o caso da educação e todo
o esforço necessário para combater fundamentalismo autoritários e negadores de
direitos, como brasileiras e brasileiros temos um dos mais criativos e ousados
intelectuais que nos podem ajudar. É o nosso Paulo Freire e sua proposta de
educação como prática da liberdade, de emancipação e de empoderamento, que
parece um tanto esquecido. Vamos nos inspirar em seu legado para libertar
nossas crianças e eles poderem sonhar com um mundo melhor. Não podemos esperar!
Vamos disputar o sentido de uma educação libertadora, para que
as novas gerações façam um mundo melhor do que nós estamos fazendo!