Apesar das evidências, cada vez
mais robustas, as direitas autoritárias espalhadas pelo mundo, com suas
diferenças, tem em comum uma sistemática negação da grande questão da mudança
climática no nosso bem comum, o Planeta Terra, como se não fosse algo
fundamentado cientificamente. Atitude semelhante aconteceu com a pandemia da
Covid, que ceifou tantas vidas, e foi definida como uma “gripezinha”.
Fantasmas e monstros são algo que
a literatura trata até de forma criativa, estimulando a imaginação. Mas outra
coisa é fantasiar um fenômeno, cientificamente provado, como a mudança do clima, afirmando
que é apenas uma ameaça de ordem política e enganosa, não um processo
natural desencadeado pela ação humana. Isto apesar de que as notícias de
eventos climáticos extremos – temporais, enchentes, ondas de calor
insuportáveis – estão presentes em qualquer parte do mundo, com grandes
estragos e perda de vidas humanas. Ou seja, o clima é um dos grandes sistemas
naturais reguladores das condições da vida na Terra. Mas já afetamos a sua
integridade e ultrapassamos os limites. E sua causa é sobretudo os modos de nos
relacionar com a generosidade da natureza, especialmente a economia
extrativista, a energia fóssil, modos de consumo e vida, com prioridade de
carros individuais para a mobilidade, do
capitalismo que temos, a serviço da acumulação de riqueza de uma parcela
minúscula de donos de tudo.
Trago este tema para reflexão
porque ele se tornou algo que turbina o autoritarismo reacionário, em suas
múltiplas modalidades, presente em praticamente todos os países.[1]
Precisamos ter claro o fato, também evidente e robustamente provado pela ciência, que o problema é de todos mas
de forma diferenciada. Uns são mais responsáveis do que outros. Ou seja, a
mudança climática já ultrapassou o limite e virou uma questão política de disputa
e negação da desigualdade social, não reconhecida como tal por amplas forças
reacionárias e autoritárias, como uma onda mundial, que as negam e tentam
impedir qualquer medida de mitigação ou enfrentamento direto das questões
climáticas.
As formas sob as quais as
direitas pregam a negação da mudança climática tem muitas expressões, que
precisamos levar em consideração nas análises e nas lutas democráticas.
Primeiro, as direitas autoritárias tentam negar a mudança climática comprovada pela ciência do clima, como se
fosse uma agenda inventada pelas esquerdas. Talvez este esforço de culpar as esquerdas
faça parte de todas as direitas
autoritárias em sua diversidade, como se a ciência climática fosse invenção de
esquerdas pelo mundo e não diagnóstico científico, tentando desqualificar a
própria ciência e a capacidade dos cientistas em diagnosticar as dinâmicas que
movem a natureza. Tal negacionismo impede que se definam agendas políticas de
enfrentamento e mudança necessária nos países, tanto na economia como nos modos
de viver insustentáveis.
Mas não podemos ignorar que as
direitas autoritárias, na falta de argumentos mais robustos para o negacionismo
que as orientam – como o lepenismo na França
- até culpam os outros, como os migrantes, que não teriam cuidado com a natureza do país que os acolhe,
pois são nômades, não respeitam o território que não é deles.
Mas há ainda as direitas que vem
na implementação de medidas contra a mudança climática como a causa do
crescimento da injustiça social e econômica. O melhor exemplo de tais direitas
autoritárias contra mudança climática é a agenda da direita americana,
especialmente com o Trump, com a sua proposta do MEGA – Make America Great Again.
São muitas as formas de negar.
Com a redes digitais ficou facilitado difundir em ampla escala com notícias
falsas – as fakenews. Por sinal, no mundo inteiro as direitas agem colonizando
as redes digitais, com muito mais habilidade que as esquerdas democráticas. O
caso do Brasil é emblemático, onde a direita autoritária domina.
Enfim, não é só pelo voto que
poderemos impedir o avanço das extremas direitas. Disputar hegemonia
democrática, hoje, passa necessariamente pelas redes digitais, com alcance sem
igual e muito maior do que qualquer outro veículo, como televisão, por exemplo.
Jornais são menos difusores de notícias fundadas
e mais de artigos de pensadores e analistas de direita.
Concluo afirmando que a disputa
política eleitoral está dependendo cada vez menos de comícios e mais de quem
for mais hábil no pantanoso terreno das mídias digitais. Devemos enfrentar a
questão ambiental do cuidado, compartilhamento e convivência entre todas e
todos e com a natureza, em sua fantástica diversidade natural e social, dando maior atenção às redes digitais e impedindo
que as direitas autoritárias sejam a
referência predominante.
[1]
Estou lendo uma livro de Miguel Urbán, com o título de Trumpismos: Neoliberais
e autoritários. Neoliberalismo da direita radical. (na versão em português).
São Paulo: Usina Editorial – Fundação Lauro Campos e Marielle Franco, 2025. O
autor faz uma ampla radiografia política da onda mundial de direita e suas
especificidades, mas ainda é pouco conhecido entre nós.
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