sexta-feira, 29 de setembro de 2023

A Necessária e Inadiável Transição: Como Fazer?


Os sinais da mudança climática estão deixando de ser alertas de comitês científicos especializados, nem sempre ouvidos e devidamente considerados. Eles estão se tornando fenômenos presentes no nosso cotidiano. Os eventos  climáticos  destrutivos de vidas e territórios concretos vem se multiplicando e se espalhando pelo mundo. São algo vivido como tragédia por muitos no acontecer, sem aviso prévio, provocando mortes e ameaçando as condições de vida de todos nos territórios afetados. As imagens dos desastres e perdas pelas famílias atingidas se difundem instantaneamente, via imagens televisas e redes sociais, impactando até os descrentes. Estamos convivendo com alarmantes fenômenos climáticos naturais intensos: chuvas e temporais fora do comum, monumentais inundações, furacões e ciclones mais numerosos e devastadores, em algumas regiões do planeta; ao mesmo tempo, secas, ondas de calor,  incêndios e  gigantescas nuvens de fumaça, em outras. Também, não é novidade a destruição de amplos territórios e sua biodiversidade, com montanhas de lixo e poluição, com a falta de tratamento de saneamento para grandes contingentes humanos, a contaminação de aquíferos, rios e mares,  a falta de água para beber...

Tomamos o clima como algo que é o que é: quente, frio, ensolarado, nublado, com ventos fracos ou fortes, chuvoso, feio, bonito, e por aí vai, pois é intrínseco a ele ser instável e surpreendente, mas dentro de certos limites. Ao sair dos limites, não dá para saber o que vai acontecer. Convivemos com o clima, falamos muito dele no dia-a-dia, mas não o vemos ou, melhor, não pensamos o que seria se tudo virasse uma ameaça destrutiva, fora da normalidade com que fomos acostumados, onde os dias rodam e mudam e nós seguimos com eles. O quanto  o clima é fundamental nem pensamos, pois sempre foi um elemento dado para a vida. Nossas vidas tem uma relação permanente com o ar que respiramos, do jeito que está disponível para todas e todos. Sim, notamos mudanças no dia a dia e sentimos, por exemplo, a poluição. Assim mesmo, vamos levando a vida, achando que a mudança é coisa restrita a algumas partes do mundo. Que ilusão! Pior ainda é não associar a mudança climática a todas as outras mazelas ecológicas e sociais, até políticas pois tudo é produto do mesmo processo de dominação para acumular riquezas a todo custo, aqueles 1% de super ricos capitalistas.    

O fato central é que o clima é um dos grandes sistemas ecológicos da integridade natural do Planeta Terra, nosso lugar comum, nossa base de vida. Apesar disto, tal fato determinante não nos faz automaticamente pensar nele e nos preocupar em cuidar dele, como ele cuida de nós. Poucos se dão conta que o próprio clima está sendo destruído, pois vem sendo colonizado por emissões de gases deste sistema capitalista e seu desenvolvimento em que todos estamos envolvidos, queiramos ou não. Nosso estilo de vida e de consumo tem por trás algo destrutivo dos territórios em que vivemos, tendo o descontrole do clima como uma ameaça oculta mais assustadora no imediato, mas não se restringe ao clima.

Estamos em comunhão permanente com os sistemas da natureza e a vida se reproduz em troca com o ciclo natural. Mas, como humanos, temos a capacidade de inventar modos de nos relacionar entre nós mesmos e com a natureza, algo admirável. Mas as invenções podem e são agressivas, destrutivas, tanto pelas relações sociais profundamente desiguais, como pela ameaças de descontrole total com a destruição do clima e de outros sistemas ecológicos, parte de um todo natural fundamental e único. Ou seja, vivemos dentro de “limites ecológicos” que são dados e precisam ser respeitados para garantir a continuidade da integridade natural que nos dá a vida e o direito de viver das futuras gerações.

É sobre esta questão que se faz a história humana. Vivemos hoje no mais destrutivo modo de produção das condições naturais da vida, pois já superemos vários dos “limites ecológicos” e caminhamos para uma situação que pode até inviabilizar todas as formas de vida. O fato é que o capitalismo e seu desenvolvimento movido em busca de acumulação gera uma economia e um modo de consumo que apontam o colapso, tanto em termos naturais, pelo extrativismo,  destruição – onde a mudança climática é o sinal mais evidente e perigoso, no imediato –,  como em termos de exclusão social e desigualdade social, destrutivas de gente.

Enfim, precisamos urgentemente de uma transição que seja sistêmica, transformadora em termos ecossociais, nas relações com a natureza e entre nós mesmos. Ninguém tem a solução “milagrosa” diante do capitalismo que mina as condições de vida de todo mundo e destrói a natureza. Na verdade, não se trata de uma solução, mas de uma busca coletiva de modos de nos organizar para viver a partir da diversidade de territórios e das nossas próprias diversidades como humanos, com valores e princípios éticos compartilhados, nos reconhecendo como humanos titulares de direitos iguais à vida. Estamos diante da necessidade de fazer valer com determinação o princípio da igualdade na diversidade humana e na diversidade de territórios humanos do próprio planeta, nossa comum maior.

Bem, toda esta longa consideração tem a ver com a busca de “sentidos e rumos”, para além do emergencial. Estamos entrando numa fase da história humana de emergência total, sem dúvida. Mas não dá para enfrentar a mudança climática com mais do mesmo, com capitalismo verde, com geoengenharia, continuando a explorar energia fóssil a todo vapor,  com mercado de carbono, com títulos verdes, com carros elétricos  e cidades feitas para carros, não para gente. As soluções da produção de energia hidrelétrica, solar e eólica são, sim, mais sustentáveis, mas dependem também, a seu modo, de mais extrativismo, de mais minerais, alguns raros, para produzir placas solares, “fazendas” solares e eólicas, hélices gigantescas, torres, linhas de transmissão, com ocupação de territórios imensos, provocando expulsões de moradores, no geral de povos e comunidades mais fragilizadas. Basta lembrar o desastre ecossocial da mais recente hidrelétrica gigante, a Belo Monte, na grande volta do Xingu, território milenar de vários povos indígenas. Ou,  ver o que está acontecendo no sofrido Nordeste do Brasil com aquelas fazendas solares e eólicas, mais uma vez contra as comunidades camponesas que buscam formas de conviver com o semiárido, com cisternas coletando água de chuvas.  

Precisamos mudar as bases em que produzimos o necessário para viver, os estilos de vida, os padrões de consumo,  as nossas concepções e os valores que nos guiam. No linguajar mais científico e acadêmico, precisamos mudar de paradigma civilizatório. Em linguagem política, uma transformação sistêmica – transformação ecossocial democrática, como prefiro definir.

Mas quem e como fazer a transição que aponte a uma transformação desta magnitude? A partir de minha opção política estratégica de buscar formas de democracia ecossocial transformadora, determinadas por hegemonia construída e conquistada a partir do chão da sociedade, em sua diversidade de identidades e vozes de cidadanias, gostaria de apontar certos sinais e possibilidades. Inspiro-me em produções e debates animados por algumas redes mundiais de movimentos sociais, ativistas e intelectuais que tenho acompanhado, nas últimas duas décadas. Vou destacar algumas ideias que podem ser consideradas como um saber estratégico comum em construção e experimentação.

Uma primeira ideia fundamental a descartar é que não existe um modelo e nem se trata de tentar construir um. O que existe é muita expressão de cidadanias em movimento, cidadanias ativas, em seus territórios de vida, voltando às raízes. Claro que não existe “coordenação” entre este pipocar de iniciativas, mas podemos identificar “fundamentos” comuns como constantes na maior parte das iniciativas. A questão mais intrigante é que o modo como nos organizamos no mundo com um sistema hegemônico comandado por um capitalismo hoje globalizado, neoliberal e financerizado, precisa mudar pois desconsidera a diversidade planetária – os territórios e sua biodiversidde  – e nos impõe a homogeneidade, um espécie de colonização real e de imaginários, impondo um estilo de vida e um padrão de consumo a ser almejado que ele produz. A própria história mostra que mudar com um modelo único imposto a todo mundo é como continuar fundamentalmente na mesma direção: tratar a humanidade e o planeta como se só existisse uma forma para tratar  conjuntos extremamente diversos e a seu modo diferentes, condições do próprio viver.

Diante disto, uma primeira e fundamental ideia que começa a se firmar no seio das redes mundiais a partir de grupos humanos locais/territoriais é a de valorizar e potenciar o “pluriverso” como alternativa ao homogêneo. A força da ideia tem a ver com conviver com a enorme diversidade de situações territoriais e humanas distribuídas pelo planeta, hoje submetidas a um modo único dominante e, por isto mesmo, destruidor em termos naturais e excludente socialmente.

Nesta linha, considero algo inspirador a rede Global Tapestry of Alternatives - GTA[i] (literalmente, Tapete Global de Alternativas). Trata-se de uma rede em construção, onde os integrantes se conectam e trocam experiências e saberes entre si e com muitas outras iniciativas territoriais e suas redes, tecendo e ampliando o “tapete” com sua diversidade de territórios, suas gentes com engajamentos e imaginários mobilizadores, criando sentido de fazer outro mundo acontecer. No momento, na Great Transition Initiative – GTI e na rede onde se debatem temas relacionados – Great Transition Network - GTN[ii] - está havendo uma discussão extremamente interessante, com textos de muitos participantes, a partir de um texto produzido por Ashish Kothari e Shrishtee Bajpai sobre a proposta da GTA.[iii]

A intrigante questão tem a ver com a própria ideia de tecer continuamente um tapete com diversidade de cores e formas humanas e territoriais.  A transformação sistêmica virtuosa aí contida vai na linha dos Zapatista: fazer “muitos mundos no interior de um mundo”. A diversidade é um dos elementos fundamentais do Planeta Terra e, portanto, de nosso viver como humanos. Construir a partir dos “territórios humanos” como comuns compartilhados  dá origem ao conceito de “pluriverso” de soluções e de movimentos que lutam por alternativas.

É possível e precisamos realizar uma enorme cartografia social planetária de iniciativas, muito mais diversas e complexas do que a gente imagina. Todas legítimas a seu modo e que existem porque tem gente engajada nelas, localmente. Será uma cartografia de iniciativas locais com vocação de tecer um outro global por fios que juntam e unem, sem negar ou destruir diversidades. Certamente, cada iniciativa é portadora de inovação e, por isto mesmo, prenhe de muito saber estratégico, desenvolvido para aquela realidade ecossocial local, territorial, um quilombo, uma reserva de povo indígena, uma área de extrativismo sustentável, uma cidade, uma periferia, um município, em busca do bem comum e do bem viver, uma iniciativa solidária para acesso à água, para a produção orgânica, para manter o emprego num empreendimento em vias de extinção por causa de ganância do empresário, um espaço de educação popular, uma creche comunitária, uma cozinha solidária... Bota diversidade nisto!

Isto, sem dúvida, é um aspecto fundamental. Mas o problema da mudança é de transição sistêmica, que precisa acontecer no mundo todo, no Planeta todo, mantendo a sua fantástica e poderosa diversidade ecossocial para tentarmos viver diferentemente, em relação virtuosa com o que existe no local em que vivemos. Questão que precisamos enfrentar na luta contra o capitalismo imposto e seu desenvolvimento destruidor e excludente, com todas as outras mazelas somadas (colonialismo, racismo, patriarcalismo, violência, etc). Mas o caminho não  é de cima para baixo. Trata-se de ser e agir radicalmente de baixo para cima, formando um tapete global de muita diversidade humana e territorial, dando lugar para todas e todos. É uma perspectiva estratégica de regeneração planetária baseada na diversidade ecossocial, não na tecnologia em busca de aumento da produção e lucros para os donos do capital. Aliás, continuamos precisando muito de ciência e tecnologia, mas a serviço do bem comum.

 A internet, criada num dos centros de excelência, o MIT, e registrada como creative common é uma ferramenta a serviço da conexão da diversidade quase sem limites. A sua privatização por grandes plataformas a serviço da mercantilização da informação está produzindo uma nova conquista e colonização de todos os povos a serviço da acumulação de não muito mais do que uma dezena de trilhonários. Mas há iniciativas pela “libertação” da internet para que seja um comum planetário, como a água, as línguas, o saber, o ar que respiramos, a biodiversidade e muitos mais.

Na verdade, trata-se de buscar o comum no pluriverso de iniciativas: concectar-se com respeito à diversidade, a partir do diálogo e tecendo conexões, coisa que, por exemplo, o FSM não conseguir produzir, aliás até se recusou a buscar o sentido político transformador que tal construção implicaria.

Isto é apenas um apontar de pistas. Não consigo estar acompanhando tais debates e não socializar, pois desde meu território de “adoção”, na periferia da Região Metropolitana do Rio, continuo com aquela gana de analista e ativista que quer mudar o mundo. O último debate na rede da GTI está sendo sobre a necessidade ou não de um Movimento Cidadão Global para a “grande transição”. As contribuições a partir do texto sobre GTA tem sido fantásticas, mas as divergências são sobre o movimento global em si, como se fosse possível um. Talvez o foco seja fortalecer a diversidade das conexões a partir dos territórios e situações humanas e não um “centralismo democrático” definidor da tal “linha correta”, que alguns continuam propondo.

Deixo para uma próxima postagem alguns aspectos mais inspiradores no sentido de conexões da “pluridiversidade”, algo em si mesmo nunca completo, pois viver é ir mudando sempre... exatamente para poder viver. 

 

 

 

 

 

 

 



[i] Maiores informações no site <globaltapestryofalternatives.com>.

[ii] No site (www.greattransition.org>

[iii] A.KOTHARI e S.BAJPAI. Global Tapestry of Alternatives: Weaving Transformative Connection. (Opens essay for GTI Forum). Pode ser acessado pelo site do GTI.

sábado, 16 de setembro de 2023

Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade

 Mais um movimento que ganha força e maior visibilidade na sociedade brasileira. Com voz própria afirma a sua identidade cidadã na diversidade. Com uma agenda específica e ativismo político, interpela o conjunto da sociedade civil  e os poderes democráticos. Como cidadanias ativas em busca de transformação ecossocial democrática, precisamos saudar e festejar as mulheres indígenas e sua organização, a ANMIGA – Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade. Trata-se de uma conquista que enriquece a democracia, que já tem voz no Congresso e ocupa espaço no Governo Federal, com Sonia Guajajara, Ministra dos Povos Indígenas do Brasil, e Joemia Wapichana, Presidente da Funai, no atual Governo Lula III.

Considero o Manifesto da ANMIGA como algo fundamental a destacar, pois revela uma concepção de suas causas e de sua agenda política abrangente em termos ecossociais. Ela aporta muitos elementos estratégicos para a disputa de hegemonia democrática que precisamos construir e conquistar no Brasil, tornando a nossa democracia mais potente e virtuosa em transformações necessárias, para uma sociedade que tenha como pilar o cuidado de gente e da natureza. Transcrevo  aqui algumas afirmações extraídos do Manifesto.[i]

·         “Nos, mulheres indígenas... Somos sementes plantadas através de nossos cantos por justiça social, por demarcação de território, pela floresta em pé, pela saúde, pela educação, para conter as mudanças climáticas e a ‘Cura da Terra’.”

·         “A Terra é irmã, é filha, é tia, é mãe, é avó, é útero, é alimento, é a cura do Mundo.”

·         “Mulheres terra, mulheres água, mulheres bioma, mulheres espiritualidade, mulheres árvores, mulheres raízes, mulheres semente e não somente mulheres, guerreiras da ancestralidade.”

Entre os dias 11 e 13 de setembro, neste período em que estamos vendo sinais devastadores de mudanças climáticas, no Brasil, na Região e no Mundo, as Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade realizaram a sua IIIª Marcha, em Brasília, com o lema “Mulheres Bioma em Defesa da Diversidade pelas Raízes Ancestrais”, com estimativa de 5 a 8 mil participantes. Os dois primeiros dias foram de preparação e a marcha em si foi no quarta feira, dia 13, seguindo até a Esplanada dos Ministérios. Participaram mulheres indígenas representantes dos movimentos da Malásia, África do Sul, Uganda, Estados Unidos, Peru, Quênia, Nova Zelândia, Bangladesh, Rússia, Indonésia, Guatemala e Finlândia. A Marcha culminou com um ato na Câmara ocupada pelas manifestantes e apoiadores, com presença das Ministras Sonia Guajajara e Anielle Franco (Mulheres) e da Presidente da Funai, Joemia Wapichana. O hino nacional foi cantado em língua indígena. Na Declaração Final, destaco afirmação de que a biodiversidade não se separa dos territórios e que elas, mulheres são biodiversidade, são corpos territoriais. A violência de gênero também foi focada, o que levou a Ministra Anielle a propor a criação de uma área especial em seu ministério para o combate à violência de gênero combinada com discriminação racial que sofrem as mulheres indígenas.

As outras duas Marchas das Mulheres Indígenas foram realizadas em 2019, de 10 a 14 de agosto, e em 2021, de 7 a 11 de agosto. O lema da Iª Marcha foi  “Território: nosso corpo, nosso espírito” e o da IIª foi “Reflorestando mentes para a cura da Terra”. Mas a busca de formas de organização e participação como mulheres indígenas é longa. As “marchas” respondem a uma necessidade de ter maior visibilidade e mais impacto político na esfera da sociedade civil e nos espaços de poder, em Brasília. Além disto, elas se integram e participam de outras organizações, movimentos e expressões dos Povos Indígenas e mulheres dos campos, florestas e águas, em lutas por direitos e reconhecimento.

Com a sua ancestralidade carregam a história de destruição e dominação longa de mais de cinco séculos de colonização sobre Povos Indígenas e seus território. Ainda hoje sofrem com a invasão criminosa de seus territórios, com muita violência e morte, destruição de florestas, extrativismo mineral e do agronegócio, com contaminação de seus rios e sua pesca, alimento fundamental. São remanescentes dos muitos povos que aqui viviam. Mesmo dizimados sem dó pela sina conquistadora desencadeada pela colonização, que se estende até hoje, tem demonstrado tenacidade e potência para resistir e defender seus modos de vida, sua cultura, sua língua, seus saberes, em comunhão com seus territórios, florestas e águas, bens comuns que lhes dão as garantias de viver.

Com a Constituição Democrática de 1988 foi, finalmente, estabelecida uma base legal ao reconhecer os direitos de Povos Originários e dar bases para justiça de reparação. Fundamental foi estabelecer o princípio do direito originário sobre seus territórios e sua identidade e direitos de cidadania como Povos Indígenas. Estabeleceu uma base constitucional para a reparação histórica de tudo o que vem sofrendo desde a chegada de Cabral. Temos algumas vitórias a celebrar, como as demarcações dos territórios enquanto política pública, avanços na educação e saúde nas aldeias, até acesso a universidades, a participação política e conquista de representação e poder. Também o Brasil firmou o  princípio da OIT da consulta prévia informada sobre qualquer empreendimento em territórios ocupados por  grupos indígenas e tradicionais.

Mas as ameaças não foram extirpadas e nem invertidas até agora, apesar da Constituição. Destaca-se a morosidade e o pouco esforço na demarcação de territórios por parte do governo ou até a parada total como foi no desastroso governo de direita, que “abriu a porteira e soltou a boiada”, além de pôr um oficial militar à frente da Funai. Pior, a potente bancada do agronegócio levantou a tese do “marco temporal” contra o direito originário dos territórios pelos Povos Indígenas. Terras continuam sendo invadidas e expropriadas por grileiros, desmatadores e garimpeiros, com muita violência e assassinatos. Em nome do “desenvolvimento a todo custo”, muitas grandes obras públicas expulsam Povos Indígenas ribeirinhos para construir hidrelétricas ou estradas para o transporte, especialmente de cargas do agronegócio. Até a exploração do petróleo, gás e minérios estratégicos, que os afeta de alguma maneira, parece ficar acima do direito constitucional estabelecido em 1988.

Hoje a luta principal dos Povos Indígenas é contra o “marco temporal” e a defesa  dos territórios, em sua integridade e formas de vida. Mas as mulheres indígenas mostram como esta luta comum tem muitas facetas e abriga diversidade de situações, identidades e vozes no próprio seio dos Povos Indígenas. No entanto, somos nós todas e todos - a grande e complexa sociedade brasileira, em sua diversidade de expressões de cidadanias ativas na luta por direitos iguais e  democracia ecossocial transformadora - que devemos nos sentir interpelados  no que somos e quanto temos de responsabilidade política e histórica em sermos solidários com eles e assumir juntos como central a causa dos Povos Indígenas.

Termino lembrando um ponto fundamental. Hoje sabemos que não podemos continuar agredindo a integridade dos sistemas ecológicos que são parte da natureza. Com a expansão capitalista dos últimos séculos, já ultrapassamos seis dos nove “limites planetários” e continuamos acreditando – felizmente não todos – que precisamos do desenvolvimento para enfrentar as históricas e vergonhas exclusões e desigualdades sociais. O desenvolvimento é o herdeiro da colonização que nos fez ser uma sociedade assentada no capitalismo que acumula destruição ecossocial  ao longo de séculos e que nos tornou um país capitalista emergente e importante no tabuleiro global, com os maiores índices de desigualdade social, uma casta de bilionários que se recusam a pagar até impostos, muitas periferias urbanas e rurais, racismo, patriarcalismo e violência sem limites, muito desmatamento agredindo hoje os biomas da Amazônia e do Cerrado para produção de commodities agrícolas e minerais, afetando o Planeta como um todo.

O que foi feito no passado, deve e pode ser refeito, nos dando um outro horizonte de bem viver para todas e todos. Mas exige visão e imaginário ecossocial, vontade coletiva e determinação na ação política. Precisamos dos Povos Indígenas, das suas Mulheres Guerreiras da Ancestralidade, pois daí podem vir inspirações e aprendizados fundamentais que precisamos fazer para cuidar de gente e da natureza, com democracia transformadora e includente de todas e todos.

   

 

 

 

 



[i]  Ver: “Manifesto das primeiras brasileiras. As originárias da terra: a mãe do Brasil é indígena”. Disponível  no prórpio site da ANMIGA <anmiga.org>.

domingo, 27 de agosto de 2023

O Mantra do Desenvolvimento III


Nesta terceira postagem da série o foco é nos libertar do conceito do desenvolvimento e do senso comum em torno a ele, contaminando nossa visão e imaginários como tábua de salvação para as grandes maiorias excluídas e pobres do mundo. Trata-se de sair das “alternativas de desenvolvimento” para um outro modo de pensar e buscar saídas, algo como alternativas a ele mesmo como base da economia que precisamos em busca de justiça social e ecológica.

Para começar, é fundamental reconhecer que não há planeta suficiente para o crescimento contínuo que o desenvolvimento supõe, ainda mais puxado pela busca de acumulação sem limites, com extração de mais valia, conquista e destruição do planeta e mercantilização de tudo e de todos. Sim, sempre precisamos de bens e serviços para viver, em qualquer época ou parte do mundo. Isto pressupõe estabelecer relações entre nós mesmos, os humanos,  de nós com todas as formas de vida e com a dinâmica ecológica da natureza que dependemos e que generosamente nos dá as condições necessária. A vida, qualquer vida, é assentada na troca com tudo que a natureza contem em seu contínuo movimento de interdependências múltiplas. Para isto, como humanos, criamos a cultura, a política/Estado, a economia, a ciência e a técnica, que podem nos fortalecer como nos destruir e, com isto, implodir o próprio planeta que nos dá a vida. Há uma equação incontornável: os limites ou fronteiras planetários[i]. A integridade dos sistemas ecológicos são uma condição absoluta para todas as formas de vida, no passado, no presente e para as futuras gerações.

Hoje toma conta o debate da crise climática, importantíssimo, sem dúvida, como uma evidência vivida de que já ultrapassamos alguns dos limites planetários pelas emissões de carbono na atmosfera pelo consumo de energia fóssil e desmatamento descontrolado, como é no Brasil (Amazônia e Cerrados, atualmente). Mas a crise vai muito além do clima e suas urgências, pois já estamos emaranhados num complexo processo de ecossocial de destruições – da mineração intensa, agronegócio, contaminação de águas, montanhas de lixo, plásticos etc. –, injustiças e exclusões sociais de toda ordem. Basta lembrar a dramática experiência da pandemia por que passamos recentemente, mostrando que continuar assim não dá. O nó central do problema é o desenvolvimento a todo custo e acima de tudo. Sem dúvida, há muitos que continuam afirmando que temos desenvolvimento de menos ou humanidade demais. Ou, numa versão mais palatável, que o problema é fazer um desenvolvimento melhor, mais inclusivo e que atenda a todas e todos. Aliás, este é o mote dominante que limita imaginários, concepções e debates em busca de outro modo de produzir e viver, de outra economia, enfim.

Diante deste quadro, foram se multiplicando insurgências cidadãs as mais variadas no mundo inteiro. Só lembro alguns, começando pelo impactante levante dos Zapatistas, em Chiapas, México, ainda nos anos 90, antiglobalização e com uma visão de muitos mundos dentro do Planeta Terra. Ou seja, o direito à diversidade em acordo com a diversidade humana e natural, contra qualquer homogeneização em nome do mercado. As várias expressões dos indígenas andinos, amazônicos, povos tradicionais do Sul Global, contra privatizações de seus territórios, extrativismo mineral e petroleiro, agronegócio. Tudo isto só vem se intensificando. Mas surgiram grandes expressões cidadãs nos espaços urbanos, tanto no Sul Global, como no Norte Global, contra as políticas neoliberais e o domínio do capital financeiro. Lembro aqui o ATTAC[ii], na França, em 1998, se espalhando pela Europa e o mundo. A destacar ainda a grande mobilização em Seattle, EUA, no final de 1999, paralisando o encontro da nova OMC -Organização Mundial do Comércio. Aliás, passou a ser uma ação impactante a organização de eventos e manifestações por ocasião dos encontros  de OMC, BM-FMI, G-7, onde quer que fosse. Este clima de insurgência também esteve presente nos encontros da ALCA, que ficou inviabilizada já no início dos anos 2000, no encontro de Buenos Aires, por pressão decidida de cidadanias da América Latina em ação.

Destaco aqui o FSM- Fórum Social Mundial, surgido em Porto Alegre, Brasil, em 2001, nas mesmas data do WEF – World Economic Forum, em Davos, nas montanhas Suíça, longe das cidadanias. A atração que o FSM exerceu na sua primeira década de existência foi sobre organizações, redes e coalizões cidadãs do mundo inteiro, com o mote “Outro Mundo é Possível”. Os eventos, anuais nos primeiros cinco anos, passou a ser de dois em dois anos, mas se multiplicaram enormemente FSMs Regionais, Nacionais, Temáticos e até Locais. Na verdade, o processo FSM, apesar de obter uma fantástica adesão, foi perdendo capacidade política de impacto na arena pública da sociedade civil, dos poderes e das instituições, que não cabe aqui avaliar.

Em 2008, no contexto da crise financeira, surgiu o Occupy Wall Street (a Bolsa de Nova York, capital financeira mundial de controle da saúde da “globalização neoliberal”). Occupy também se multiplicou enormemente, praticando democracia deliberativa direta, mas seu impacto foi mais simbólico para nós mesmos do que para as instituições. O mesmo ocorreu com o M-15, na Espanha, mas aí redundando na criação do partido Podemos, hoje um tanto destroçado. Teve a “Primavera Árabe”, começando na Tunísia, com grande impacto na própria Tunísia e em Cario, no Egito. Outra insurgência que foi perdendo intensidade pela reação das forças políticas dominantes nos países. Enfim, manifestações nacionais com espalhamento para outros países tem sido uma constante, mas parece que como “cidadanias planetárias” nossa ação ainda é pouco eficaz, apesar da potência simbólica enquanto imaginários e esperanças alimentadas.

Cabe destacar aqui o contrário também, as reações de extremas direitas e as ameaças que vem criando se alastrando pelo mundo em nome de fazer melhor a própria globalização neoliberal, sem vergonha de reprimir e excluir, em nome de um capitalismo total, de destruição e exclusão, sejam classes trabalhadoras e populares internas, como, sobretudo, contra migrantes, que com as crises econômicas e guerras se tornaram uma grande expressão trágica imposta a excluídos, em nome de nacionalismos estreitos. Isto vem ocorrendo no Norte Global, mas se tornou uma ameaça real nos países do Sul Global. Basta lembrar do nosso caso, com o truculento e destrutivo governo de vocação fascista que tivemos.

Mas, então, o que fazer?  Primeiro, desistir jamais! O que foi implantado de forma destrutiva e excludente pode sempre ser desfeito pela ação política determinada para tanto. Ao mesmo tempo, sempre existe a possibilidade de outro mundo. Afinal ideias, propostas, insurgências, não faltam pelo mundo. Difícil é, sem dúvida! Mas não impossível. A história, que adeptos do neoliberalismo globalizada afirmam ter acabado, ainda não acabou.

Pode ser uma ironia, mas talvez, para nos emancipar vale a pensa em “descolonizar” nossas mentes e corações como uma atividade emancipatória a la Paulo Freire e sua prática da liberdade e de troca de saberes. Não se trata de fazer um desenvolvimento melhor, trata-se de pensar diferentemente, em outras bases, inspirando-se nestas nossas insurgências cidadãs. Precisamos reconhecer, antes de mais nada,  que a truculência do capitalismo neoliberal  se pratica com imposição de ideias, valores e muitas fakenews,  que só podem ser enfrentadas por “guerra cultural cidadã”, de disputa de hegemonia no coração da sociedade, contra o imaginário e doutrina dos que se valem de seu capital para dominar o mundo. Simples e complexo assim! Temos que refundar imaginários portadores de esperança inspirados na diversidade e conseguir barrar as propostas destrutivas e excludentes. Olhando para as gentes em sua diversidade, nas sociedades civis, não para a economia ou esperar simplesmente dos Estados é o caminho virtuoso, pois os Estados só serão transformadores se nós mesmos os mandatarmos para tal. Temos um enorme patrimônio de “...diversidade e pluralidade de ideias e soluções”[iii], mas precisamos reconhecê-las e nelas apostar, criando movimentos irresistíveis, do local ao mundial.

 Aí é que entra a instigadora interpelação do bem viver[iv], por exemplo. Trata-se uma concepção e orientação ética  de um modo de viver no seio das populações indígenas andinas. A noção traz no seu centro um modo de ver e se sentir parte da integridade da comunidade humana, animal e natural da Mãe Terra (Pachamama). Mas não é um modelo alternativo a ser copiado como solução, como muita gente vem fazendo. Assim como o bem viver dos povos originários andinos, existem muitas outras concepções, em outras partes do mundo, que buscam dar conta da dinâmica natural e do lugar da humanidade no processo de trocas e compartilhamentos indispensáveis para viver. Por exemplo, o ubuntu[v], presente nas culturas africanas é outra versão potente e inspiradora, mas novamente não é um modelo a ser imitado ou copiado.

O certo é que precisamos de outros modos de pensar, de outros paradigmas, fora do que nos foi imposto de forma implacável com a ideia de crescimento/desenvolvimento, PIB e arrocho fiscal e seus correlatos: desenvolvimento sustentável, desenvolvimento humano, capital humano, empreendedorismo, capital social, etc. Pior, tudo é apresentado e martelado como algo incontornável, em suas várias versões. Aqui precisamos por em questão o paradigma civilizatório herdado do capitalismo como sua colonialidade eurocêntrica, cristã, racista e patriarcalista, tanto no Norte Global como no Sul Global. Ou seja, no mundo inteiro, conquistando, destruindo, excluindo, são sendo só algo circunscrito aos países pobres, ex-colônias.

O fato é que nas últimas décadas tudo se acelerou de algum modo com a globalização capitalista neoliberal, com variantes do mesmo e sem saídas à vista. E pior, controlados por “um modo imperial de viver”[vi], seus produtos, sua moeda, sua cultura, seus exércitos e suas bombas atômicas, capazes de precipitar a catástrofe planetária.

Não vou me alongar neste ponto, pois penso que temos uma tarefa coletiva e planetária de buscar outro modo de produzir e viver neste maravilhoso planeta, bem comum a todas e todos, e não uma reserva natural a ser explorada em nome da “liberdade dos detentores do capital” para ser acumulada como riqueza nas mãos de 1% da humanidade. As fontes de inspiração que precisamos olhar são muitas, não dá para listar todas aqui. E nem é meu objetivo. Gostaria de finalizar simplesmente indicando em nota de fim algumas fontes que tem muito acumulado, em que me envolvi pessoalmente, de algum modo, e acompanho, sobretudo após as frustrações com o esvaziamento do FSM, que não soube se renovar diante dos desafios planetários.[vii]

 



[i] Os “Limites Planetários” (Planetary  Boundaries) são uma medida de avaliação das condições climáticas e ecológicas dos sistemas naturais da Terra que garantem a vida. Como medida, foi criada pelo Stokholm Center, Suécia, em 2009. 

[ii] ATTAC- Asssotiation pour la Taxation des Transation pour l´Action Citoyenne.

[iii] Raresh Vlad Bunea. “Degrowth” <vladbunea@gmail.com>

[iv] Um pequeno texto que considero fundamental para se pensar o que significa e representa “bem viver” é do ativista e intelectual boliviano Pablo Solon. Ver: SOLON, Pablo. “Vivir Bien: Old  Cosmovision and New Paradigms”. Great Transition Initiative (February 2018). Acessível em <https://greattransition.org/publication/vivir bien>

[v] “Ubuntu” é uma filosofia e ética dos diferentes grupos etnológicos da África Subsaariana. Nesta concepção, o ser e viver humano implica em ter empatia, respeito, cuidado, solidariedade, convivência e compartilhamento entre todas e todos.

[vi] Raresh Vlad Bunea. op.cit.

[vii] Estou seguindo as seguintes iniciativas: (1) The Commons Strategies Group –CSB ( O Grupo sobre Estratégias do Comuns), com o site <commonsstrategies.org>; 2) P2P Foundation (Fundação de Igual para Igual ou Entre Iguais), com o site <p2pfoundation.net>;  3) GREAT TRANSITION INITIATIVE – GTI (Iniciativa da Grande Transição), com os sites <greattransition.org>  e <tellus.org> 4) Great Transition Network – GTN (Rede da Grande Transição),com o site <greattransition.org>; 5) PLURIVERSE: A Post-Development Dictionary ( Pluriverso: Dicionário do Pós-Desenvolvimento), no livro de mesmo nome, de responsabilidade de KOTHARY, A., SALLEH,A., ESCPBAR,A., DEMARIA,F., ACOSTA,A.(Eds.). New Delhi: Tulika Books/AuthorsUpFront, 2019; 6) ENVOIRONMENTAL JUSTICE ATLAS – EJAtlas (Atlas de Justiça Ambiental), com o site <ejatlas.org>; 7) GLOBAL WORKING GROUP BEYOND DEVELOPMENT Towards Systemic Emancipatory Transformation (Grupo de Trabalho Global para
Além do Desenvolvimento em Direção da Transformação Emancipatória Sistêmica), com os sites <beyonddevelopment.net> e www.rosalux.org.ec/grupo;  8) GLOBAL TAPESTRY OF ALTERNATIVES – GTA (Tapete Global de Alternativas), com o site <globaltapestryofalternaives.org>; 9) RADICAL  ECOLOGICAL DEMOCRACY – RED (          Democracia Ecológica Radical),com o site <radicalecologicaldemocracy.org>; 11) PLANETARY BOUNDERIES – PB ( Fronteiras Planetárias), com o site <stockjolresisience.org>.

domingo, 20 de agosto de 2023

O Mantra do Desenvolvimento II

 

Retomo a reflexão sobre o desenvolvimento focando um período mais recente, particularmente marcado pela globalização capitalista neoliberal. Esta foi se gestando desde os anos 1970, combinando vários processos, mas se consolidando como uma espécie de dogma ou religião laica. Submeteu e subverteu os próprios Estados – com o mote de menos Estados e menos políticas sociais – pois, na estreita visão neoliberal, desenvolvimento só se alcança com o domínio absoluto do livre mercado,  suas leis de mercantilização de tudo e que vença o mais competente. Tivemos o aparecimento do Fórum Econômico Mundial, em Davos, como espaço de construção de consensos para o desenvolvimento neoliberal e global do capitalismo, com participantes de CEOs de grandes empresas, bancos, fundos de desenvolvimento, as suas elites pensantes através de fundações ou de grandes meios de comunicação, além de líderes políticos dos países dominantes. O pensamento neoliberal começa a sua escalada rumo à hegemonia nas grandes universidades, tendo na liderança a Universidade de Chicago, berço dos “Chicago Boys”.  Em meados dos 1980 apareceu o “Consenso de Washington” das Instituições Multilaterais (BM, FMI), que propôs o famigerado decálogo de imposição das políticas de abertura comercial e tratados de livre comércio, desestatização e privatizações, ajuste estrutural, reformas trabalhistas e dos sistemas de aposentadoria.  Enfim, um capitalismo de domínio do capital financeiro e da mercantilização total da vida. Na sua esteira, depois de vários anos de negociações da “Rodada Uruguai do GATT”, foi criada na década de 1990 a OMC, que se somou ao BM e FMI.

Vendo hoje aqueles anos tumultuados dá para qualificá-los como de “radicalização do capitalismo” com uma estratégia imperial dos EUA e seus eternos aliados da Europa, para (re)controlar o mundo, já que as guerras imperiais levaram a impasses ou derrotas (Coréia, Vietnam...). Basta lembrar o significado econômico e político da “crise da dívida” no então chamado “Terceiro Mundo” e a destruição provocada, em seu nome, na forma de “ajuste estrutural” imposto, verdadeiro tsunami sobre nossas economias e, particularmente, sociedades. No processo, em 1989, acabou a bipolaridade da Guerra Fria, com a implosão da URSS e do bloco socialista do Pacto de Varsóvia. Aí começa o que vemos mais claro hoje, a expansão da OTAN, começando com a guerra na antiga Jugoslávia.

No centro do capitalismo, os governos Reagan, nos EUA, e Thatcher, na Inglaterra, foram emblemáticos no período. Aliás, a conservadora Thatcher, a “dama de ferro”, foi implacável na destruição do movimento sindical inglês. Ela cunhou a expressão de que não há alternativa ao neoliberalismo: TINA – there is no alternative.  Exatamente na mesma Inglaterra, Tony Blair, trabalhista, veio com propostas de “neoliberalismo de esquerda”, uma espécie de capitulação vergonhosa que contaminou a socialdemocracia europeia em seu conjunto. Além disto, abriu espaço para o ressurgimento de propostas da direita extrema, que não escondem sua vocação fascista, nacionalista e xenofóbica.

Fora do mundo eurocêntrico, cabe destacar o que surgiu no Sudeste Asiático e, sobretudo, na China com a sua escalada para se tornar o que é hoje, o coração industrial do mundo. Enfim, o mantra do desenvolvimento capitalista neoliberal passou a penetrar em tudo e em todo mundo. Não foi exatamente uma revolução apesar de redesenhar o mundo e submetê-lo ainda mais ao capitalismo. A versão chinesa, com liderança do partido comunista, promoveu exatamente o desenvolvimento capitalista,  para combater a imensa fome e pobreza no seu seio e construir uma sociedade comunista. É possível? Bem, tem semelhança com o que foi o “comunismo” na Rússia de Stalin. Mas na China, as grandes empresas capitalistas foram aceitas e transferiram as suas plataformas industriais para lá, valendo-se da “disciplina” do Estado, salários extremamente baixos e falta de movimento sindical para combatê-las. O Estado teve e tem um papel central nas transformações “capitalistas chinesas”.

O fantástico crescimento econômico tornou a China um polo central na demanda de matérias primas de toda ordem e do mundo inteiro. A reprimarização das economias “endividadas”, como a de nossos países da América Latina, foi alimentada por este “boom das commodities” com centro na China. Trata-se ainda do desenvolvimento, sem dúvida, medido pelo crescimento espetacular do PIB por longos anos, pois tornou a China. Transformador? Sem dúvida! Hoje, entre os super bilionários que manietam o mundo a seu serviço, naquela parcelinha dos 1%, os chineses tem participação destacada. Se temos um capitalismo globalizado diferente do que foi o capitalismo do pós II Guerra Mundial, a espetacular ascensão da China e seu entorno tem um grande papel.

Ocorreram mudanças geopolíticas de monta, que não é meu objetivo analisar aqui. Vale a pena, porém, destacar que neste contexto, a dívida externa se tornou sinônimo de imposição das políticas do “Consenso de Washington” sobre os países subdesenvolvidos com o pacote de ajuste estrutural. Isto num contexto de esgotamento dos regimes autoritários e de redemocratização. Ou seja, as democracias no continente ressurgem “encurraladas” pelo globalização capitalista neoliberal, onde o desenvolvimento, entendido como crescimento, dependeu de muito ajuste e um verdadeira reprimarização (agronegócio e mineração) das economias. Talvez os casos da Argentina e do Brasil são os mais emblemáticos, pelo seu tamanho e pela dependência que passaram a ter da produção de “commodities”, especialmente para China, mas também para a União Europeia. Mesmo a onda de governos progressistas não conseguiu inverter tal tendência global. Isto porque se restringiram a políticas democráticas distributivas dependentes da “exportação de commodities”, sem transformações significativas nas economias com seu “neoliberalismo progressista”,como são definidos nos círculos mais críticos.

Mas em termos de concepções e imaginários, com grandes redes, coalizões e eventos se instalou um debate sobre “alternativas de desenvolvimento”: desenvolvimento sustentável, desenvolvimento humano, desenvolvimento com face humana, desenvolvimento como direito[1], entre tantos outros. Tudo para submeter o próprio “desenvolvimento econômico capitalista neoliberal” a objetivos democráticos e sociais, apostando na possibilidade distributiva e consumista, mercantil, de mais e mais crescimento com base nas empresas e seus mercados.

Não cabe aqui lembrar isto tudo, pois não é o propósito da série de postagens. Mas gostaria de ressaltar o papel da ONU, em particular, como promotora de “alternativas de desenvolvimento”, algo que ela alimenta até hoje como fórum multilateral sem verdadeiro poder de gestão do mundo, pois não passa de sinalizador de tipo “moral” e espaço político de busca de consensos para evitar guerras... As guerras não foram e não são evitadas até hoje, pois fora do Conselho de Segurança, com o poder de veto de “cinco” potências, a ONU nada decide.

No Interior da ONU foi criado o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Também surgiu a CNUCED – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Em termos de debate sobre como praticar um desenvolvimento mais justo – com cara humana, ao gosto da ONU – foram e são espaços importantes e mereceram atenção e participação de muitas redes e coalizões pelo mundo. Mas merece destaque especial o ciclo das grandes Conferências Temáticas da ONU, num esforço de se contrapor e produzir alternativas, de algum modo, à globalização neoliberal ou, ao menos, mitigar seus impactos, chamando os governos nacionais e fóruns multilaterais para suas responsabilidades a respeito. No processo, ganhou destaque uma agenda ambiental e social. Só relaciono aqui as principais: Meio Ambiente (Rio, 1992), Direitos Humanos (Viena,1993), População e Desenvolvimento (Cairo, 1994), Desenvolvimento Social/Pobreza (Copenhagen, 1995), Mulheres (Pequim, 1995), Assentamentos Humanos/Habitat (Istambul, 1996). Basta lembrar estas para ver a preocupação mais social, mas sempre sobre o mantra do desenvolvimento, sem pô-lo em questão enquanto tal. As conferências da ONU não são criações da época, mas ganharam intensidade e destaque provocando maior atenção e participação de organizações da sociedade civil, com organização de eventos paralelos à conferência oficial, buscando influir nos acordos oficiais.

É dos intensos anos 1990 – para nós, latinoamericanos, de redemocratização e esperanças – que surgem outras medidas de desenvolvimento além do PIB. A ONU adota o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, criado com participação de Amartya Sen. Sua publicação anual pelo PNUD começa em 1993. Sem dúvida, mais amplo por inclui expectativa de vida (indicador de saúde), tempo médio de estudo (educação) e valor médio de renda (PIB). A gente não precisa ter muita imaginação para ver como o PIB determina os outros dois em sociedades capitalistas. É um olhar mais amplo, sem dúvida, mas não questionador do satus quo dominante.

Foram décadas de mais análises (muito importantes, até) e debates em termos de busca de alternativas de desenvolvimento. Foi uma época de profusão de publicações, conferências, encontros. Destaco, pelo seu significado, o Dicionário do Desenvolvimento, gestado no processo da Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro, em 1992[2]. Foi fundamental, também, um pequeno relatório publicado ainda em 1972 pelo Clube de Roma demonstrando,  pela primeira vez, a insustentabilidade do crescimento. O impacto da publicação foi enorme, pois com ela se pôs em questão, talvez pela primeira vez, o desenvolvimento baseado no crescimento, recebendo muitas críticas, especialmente de economistas.[3]

De toda forma, no enfrentamento da globalização capitalista neoliberal, as contribuições como as da ONU podem ser vistas como uma espécie de busca de um caminho intermediário, de garantir que a humanidade e todas as formas de vida não sejam inviabilizados pelo capitalismo. Uma mitigação dos seus efeitos mais perversos. A consciência da crise climática ganhou relevo. Não chega ser uma visão integrada da destruição ecossocial em curso e de busca de transformações inadiáveis. São acordos, mais acordos...  e tudo continua mais ou menos como antes. Talvez isto adie o desastre provocado pelo desenvolvimento do capitalismo e sua acumulação, pois algo acontece em termos de transição energética, por exemplo. O problema é que estamos diante da necessidade de mudar tudo, economia, poder e estilos de vida para ficarmos nos limites planetários e sermos justos com toda a humanidade e todas as formas de vida, de que dependemos.

Este caminho intermediário não passa de um sinalizador de perigos imediatos e boas intenções diante deles. Com as Conferências da ONU surgiram as COPs, como as do Clima e da Biodiversidade, realizadas com regularidade. A ONU, ainda em 2000, adotou a Declaração dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Depois, em 2015, os ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. São sinalizações de tipo consensual... sobre como praticar um desenvolvimento sustentável e bom – mais explícito seria declarar “crescimento capitalista” verde e humano, se isto fosse possível, pois não foi, não é e nunca será.

Termino destacando a contribuição de tais propostas para a requalificação do próprio debate de “alternativas de desenvolvimento”. Começou naqueles tumultuados anos o debate muito mais promissor sobre alternativas ao desenvolvimento enquanto tal. Isto redundou na busca de mudanças de paradigmas transformadores mais complexos, debate que ocupa certa centralidade até os dias de hoje, no bojo do qual foram postas em evidência propostas como as de “bem viver” de inspiração dos indígenas latinoamericanos. Tal tema deixo para uma próxima postagem, com a declarada intencionalidade de abandonar de vez a caixinha do desenvolvimento como perspectiva. Mas, no imediato, temos o risco de algo muito pior: as direitas e sua opção fascista de um mundo para poucos, os ‘bons’, com exclusões das maiorias indesejáveis. Uma opção pelo desenvolvimento capitalismo autoritário, sem vergonha de pregá-lo abertamente.

 

 

 

 

 



[1] Foi nos tumultuados anos 80 da década passada que tudo isto ganhou  força e deu origem a muitas redes mundiais de ativismo de sociedades civis, para além do sindicalismo que existe há muito tempo. O “direito humano ao desenvolvimento” foi aprovado na Assembleia da ONU de 1986.

[2] A versão publicada no Brasil, em português, é de 2000. Ver Wolfgang Sachs. Dicionário do Desenvolvimento: guia para o conhecimento como poder. Petrópolis: Vozes, 2000

[3] Clube de Roma. Os Limites do Crescimento. 1972. O relatório foi produzido,  sob encomenda, pelo MIT, de Boston, pela equipe liderada por Dona Meadows.

domingo, 6 de agosto de 2023

O Mantra do “Desenvolvimento”[i] - I


Poucos se dão à tarefa de pensar sobre o que é e o que significa, afinal, o “desenvolvimento”. Ele funciona como um poderoso senso comum, um amálgama agregador apontando sentidos e rumos. Atravessa todos os extratos sociais, todos os meandros em que a gente leva a vida,  sejam rurais ou urbanos, nas grandes periferias e nos centros mais aquinhoados e intensos, no interior das famílias e comunidades, no trabalho, nos espaços de lazer e cultura, nos meios de comunicação e redes, nas esferas do poder. Geralmente, é visto como uma verdadeira lei econômica incontestável e está incorporado como um acordo político básico de que precisamos do desenvolvimento. Ele é visto como bom e necessário, um processo de sempre ter mais e mais bens e serviços, expressão de bem estar e “civilização” a ser construída. Está subentendido que sem desenvolvimento ninguém pode ter futuro, seja qual for. Só falta achar o caminho certo e as lideranças adequadas que nos levem a ele e nos proporcionem o máximo. O fato é que o  desenvolvimento justifica os mais variados regimes políticos, de fascismos e ditaduras a democracias liderados por blocos de direitas ou democracias de perfis mais progressistas e includentes, até os regimes de socialismo histórico de inspiração marxista se vangloriaram de seu rápido desenvolvimento econômico.

Haja engodo mais poderoso! De cara, precisamos reconhecer que o difuso conceito de desenvolvimento, enquadra o modo de pensar e limita a imaginação, os sonhos, a inovação e a ousadia,  algo fundamental para o viver humano. Podemos divergir sobre como fazê-lo, mas parece que não temos outra saída para buscar algo mais e melhor, até a justiça social, com maior igualdade e inclusão de todas e todos. Mas, sobretudo, o desenvolvimento tem a capacidade de esconder a falsidade e a dominação nele embutida, assim como a destruição ecológica e social que é produzida em seu nome. Sempre de formas, extensões e impactos ecossociais muito diversos.

Vale a pena esclarecer o sentido que estou dando ao “desenvolvimento como mantra”. Não estou pondo em dúvida que a busca de desenvolvimento implica em processos econômicos, científicos e tecnológicos, sociais, culturais e políticos, diferentes e inter-relacionados. Tudo depende onde – em que país, região – e em quais  condições históricas e  políticas se dá o desenvolvimento. Meu objetivo é chamar a atenção para a dimensão ideológica  que a noção de desenvolvimento esconde mais do que aponta e revela, de sua capacidade de provocar adesão mais do que dúvidas. Sempre medido e acompanhado pela mágica e reducionista camisa de força do crescimento do PIB – produto interno bruto em termos de valores de mercado de todas atividades econômicas de um lugar em um período dado. Se ele cresce e tende a crescer é sempre bom e festejado, Mas se não cresce ou, pior, se diminui, o PIB se torna um sinal de alerta de crise à vista. O PIB não aponta qualidade nenhuma, pois é um termômetro e se basta a si mesmo: indicador da “febre” da economia. Nada sobre desigualdade social ou destruição ecológica do desenvolvimento. Enfim, nada sobre a saúde e bem estar da população. Nada sobre o domínio e o extrativismo de recursos naturais em nome dele. Sempre é repetida a promessa nunca cumprida do desenvolvimento: a economia precisa crescer para distribuir. É esperar, esperar... para nunca chegar lá.

Em si mesmo, o conceito de desenvolvimento é de múltiplo uso, para tudo que cresce. Ele vem sendo usado desde muito tempo, seja para seres vivos, capacidades humanas, tecnologias, culturas, sociedades inteiras. Porém, aqui estou tratando do desenvolvimento econômico, entendido como crescimento da produção de bens e serviços. Mas como expressão de um ideal de bem estar coletivo precisa ser situado nas relações geopolíticas de constituição, expansão e domínio do capitalismo, com suas etapas, que não cabe aqui aprofundar. Basta ficarmos nas heranças vivas e atuantes hoje.

Como expressão ideológica carrega as heranças do que foi a violenta e destrutiva expansão europeia de conquista, colonização, extrativismo, com escravidão, racismo e patriarcalismo, em nome da modernidade, da “civilização cristã” contra a “barbárie”. Foi uma empreitada que se gestou no seio da Europa e se consolidou às expensas do mundo, para a acumulação primitiva do que se tornou o capitalismo “desenvolvido”:  novo modo de produção, exploração, destruição e domínio – econômico, político, militar, imperial e cultural para a acumulação de mais e mais capital em poucas mãos – em  que estamos mergulhados até hoje, e que nos dizem “não haver alternativas”. Será?

Bem, não é o lugar e nem meu objetivo aprofundar isto. Basta lembrar como uma espécie de lastro histórico. Como expressão carregada  ideologicamente, o “desenvolvimento” se tornou o mantra do capitalismo após as destrutivas grandes guerras mundiais do século passado, aquela carnificina envolvendo o mundo tudo, movida por disputas geopolíticas imperiais, tendo a Europa como palco principal. Mas o objetivo era a partilha do mundo, ou seja, o acesso e exploração das colônias, especialmente aquelas sob domínio inglês e francês.

A I Guerra Mundial, de 1914-1918, acabou com a capitulação da Alemanha, principal potência capitalista em ascensão na época. Mas em meio à ela aconteceu a Revolução Socialista na Rússia, em 1917, com grande impacto político, passando a ser vista como ameaça ao mundo.

A revanche da Alemanha se forjou com todos os horrores do nazismo de Hitler, que iniciou a II Guerra Mundial em 1939 e conseguiu dominar militarmente a Europa Continental Ocidental. Com sua derrota em 1945, especialmente pelas vitórias da URSS, vindo do Leste, e aliados liderados por EUA, na frente Ocidental, deu-se o fim da II Guerra, em 1945.

Desta guerra surgiu o mundo bipolar da Guerra Fria, com EUA de um lado e URSS do outro. Também surgiu a ONU com promessas de evitar guerras, mas estruturalmente incapaz de gerir as contradições do mundo até hoje, dado o poder de veto no Conselho de Segurança das cinco potências vencedoras da guerra. Isto é um resumo, quase uma caricatura, mas o que importa é a realidade criada e que foi dominante de 1945 a 1989, quando se deu a implosão da URSS e do Pacto de Varsóvia dos países comunistas do Leste Europeu. Os EUA, temporariamente vitoriosos, conquistaram hegemonia imperial capitalista unipolar, com seus exércitos e o dólar. Só agora no século XXI esta hegemonia está sendo ameaçada de algum modo

Mas o que isto tudo importa para o que chamo “mantra do desenvolvimento”? Tudo se gesta naqueles anos iniciais do pós-II Guerra Mundial. O “comunismo” representado pela URSS, apesar de membro com poder de veto na recém nascida ONU, passou a significar o inimigo maior à nova hegemonia. Importa destacar que, antes mesmo do fim da guerra, em Breton Woods, no norte de Massachusetts, EUA, por acordo entre o bloco vitorioso, foram criadas as instituições centrais da nova hegemonia do dólar para o capitalismo: BM e FMI, que não se faz necessário qualificar aqui pelo que significam para o mundo e o imperialismo norteamericano desde então.

O que sim importa destacar é como surgiu a bipolaridade, sob liderança dos EUA e da URSS. A “guerra fria” é de 1947. Derrotados o nazismo e o fascismo, o inimigo maior passou a ser o socialismo/comunismo, representado pela URSS. Apesar da ditadura de Stálin, a URSS mostrava um sucesso espetacular em avanços econômicos e sociais, que seduziam muitos países pelo mundo, sobretudo as ex-colônias dos imperialismos europeus, a partir de então submetidos ao imperialismo dos EUA e seus aliados europeus, ex- potências coloniais.

É do Governo Truman, dos EUA, que se impõe a noção de “desenvolvimento” – capitalista, é claro – em contraposição ao “socialismo/comunismo”. Baseado no “american way of life” passou a ser referência de um mundo possível de produção de bens e serviços com acesso a todo mundo, e um de viver e de cultura baseado no consumismo,  um sonho em termos de bem estar para povos nos mais diferentes países. Como parte da estratégia, muito além de bancar o “cão de guarda” do mundo, passou a contar com BM para financiar o “desenvolvimento” e o FMI para regular as moedas e evitar crises financeiras sob o domínio do dólar – então tendo o ouro como equivalente. Mas para  assegurar a sua hegemonia concebeu o Plano Marchal[ii] de recuperação da Europa Ocidental devastada e o “machartismo” interno[iii] contra as esquerdas e simpatizantes, em nome do combate ao comunismo.

Foi uma estratégia de “legitimação da hegemonia do desenvolvimento” – como prefiro definir – que influenciou o mundo inteiro. De algum modo, afetou e submeteu as grandes promessas das esquerdas em ascensão na Europa animada por potentes movimentos sindicais e intencionalidade anticapitalista. Para o que, então, passou a se chamar “Terceiro Mundo” (ex-colônias em geral) sobraram a vigilância militar descarada e o risco de intervenção militar, para quem fosse considerado fora do rumo certo do “desenvolvimento”... capitalista, sem dúvida. Aí começa, por exemplo, o drama da ousadia de Cuba, com a revolução comandada por Fidel Castro, e, na sua esteira, a implantação de ditaduras militares entre nós latinoamericanos com apoio dos EUA, que passaram a uma estratégia de contenção de insurgências pelo mundo, com guerras que foram se multiplicando, que não se faz necessário relacionar aqui.

As contestações não frontais ao “desenvolvimento”, mas concebidas mais para explicar os porquês do não desenvolvimento, foram muitas e em si mesmas importantes como buscas e construção de imaginários alternativos nos países pobres, em geral ex-colônias do expansionismo eurocêntrico, na América Latina, África e Ásia. Aqui cabe focar especialmente a vigorosa produção intelectual a respeito, com impactos políticos em nossos países, surgida na América Latina. Trata-se, de uma forma ou outra, em esforço crítico do “desenvolvimento”, mas sem sair da caixinha que ele representa como concepção de bem estar coletivo a ser buscado, seja para combater desigualdades sociais e pobreza, como para conseguir melhores padrões de vida em termos de consumo de bens e serviços.

Na verdade, aqui só cabe lembrar as origens e rumos de tal produção, impossível de aprofundar para os objetivos de minha análise. A inspiração veio da CEPAL/ONU, através do argentino Raul Prebisch, com a formulação da linha estruturalista do pensamento econômico. Ele apontou as relações econômicas mundiais como de trocas desiguais, onde o desenvolvimento gera e pressupõe o subdesenvolvimento. Na mesma linha e com grande impacto no nosso seio veio Celso Furtado e sua grande produção, referência até hoje. Daí veio toda uma ideia da necessidade de ação do Estado para passar do subdesenvolvimento ao desenvolvimento. É de 1952 a criação no Brasil do BNDE – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico[iv], um dos maiores bancos do gênero no mundo, até hoje. Vieram as grandes estatais para induzir o desenvolvimento, como a Petrobras e Eletrobrás. Também veio depois a SUDENE, com a finalidade de promover o “desenvolvimento” no Nordeste.

É importante destacar duas decisões políticas com enormes consequências para a história do desenvolvimento brasileiro. Primeiro, os “50 anos em cinco do Juscelino Kubitschek”, com a opção pela indústria automobilística e sucateamento da enorme malha ferroviária de então, para criar mercado para caminhões de carga e ônibus para transporte de passageiros. Até os bondes desapareceram... A outra decisão foi a majestosa e  ousada obra de Brasília para ser a nova capital do Brasil. Claro, em nome do mesmo mantra do desenvolvimento foi construída a capital no Planalto Central, no divisor de águas dos grandes rios brasileiros, afluentes do Amazonas e os do Paraná. Mas Brasília, bela obra de arquitetura, desde o nascimento produziu mais favelas – as cidades “satélites” - do que cidade propriamente dita, para todas e todos, nossa grande chaga social de periferias excluídas em todo que é cidade. Estes dois marcos são uma espécie de mudança de época na história brasileira. Ambas decisões produziram impacto econômico, social, migrações enormes, destruição ecológica ... como resultado do desenvolvimento.

Em termos de pensamento, na esteira do pensamento estruturalista veio a “teoria da dependência”, com muito mais capacidade crítica do que a linha inaugurada pela CEPAL. A motivação, porém, era o porquê que não acontecia o tal “desenvolvimento”. Claro que muitas versões de esquerda foram se multiplicando no sentido de mudar a estrutura de relações que impediam nosso acesso ao desenvolvimento.

Outro destaque em termos de desenvolvimento brasileiro, que não dá para ignorar, foi o período da ditadura militar, de 1964 a 1985. Foi algo que ocorreu primeiro no Brasil,  mas se multiplicou e em muitos outros países da região. No nosso caso, a ditadura, com toda a sua violência, repressão, perseguição e morte de opositores ao regime, produziu o “milagre econômico” brasileiro dos anos 1970, então festejado pelo capitalismo do mundo inteiro, levando o Brasil a se tornar um dos principais destinos do capital estrangeiro para... trazer o tão sonhado desenvolvimento com suas mazelas.

Nunca é demais lembrar os “feitos” do milagre da ditadura. Especial destaque merece a agressão direta à integridade da Amazônia com sua proposta de “colonização” (literalmente), abrindo a Transamazônica, via de Leste rumo ao Oeste, contra Povos Originários e Tradicionais, ameaçando a integridade do bioma amazônico, com assentamento de colonos e, na sua esteira, estimulando a grilagem de terras e desmatamentos para nova fase de expansão dos grandes latifúndios. Outro destaque é construção da gigante hidrelétrica de Itaipu com a formação de um imenso lago, expulsando milhares de agricultores familiares e alagando as Sete Quedas do Rio Paraná, em nome do desenvolvimento.  Bem, das ruínas da destruição ecossocial surgiu o MST, um movimento social renovador e com bandeira da Reforma Agrária. Itaipu inspirou um modelo de grandes obras, como a Ponte Rio-Niterói, feitas a pau e fogo. Também devemos à ditadura, em nome do desenvolvimento, a consolidação do modelo do agronegócio e sua expansão rumo ao Centro e Oeste do país, tornando o país um dos maiores produtores e exportadores de grãos do mundo, em base de um capitalismo agressivo da natureza, dos povos originários e da própria política e poder do país. Mas não dá para falar do “milagre econômico” da ditadura deixando de lado o arrocho salarial implacável, como política de, mais uma vez, de desenvolvimento. No seu lastro cabe destacar, na contramão, o ressurgimento do “novo sindicalismo”, tendo os metalúrgicos do ABC na frente e “criando” a liderança de Lula e o PT, que marcam as lutas pela redemocratização desde os anos 1980 e o período de 14 anos de governos petistas.

Como conclusão provisória – pois continuarei em novas postagens – sim tivemos e temos “desenvolvimento” medido pelo PIB, desenvolvimento capitalista concentrador e destruidor em termos ecossociais, combinando extrativismo sem limites, exploração até com trabalho análogo à escravidão, com índices de pobreza e fome vergonhosos. É disto que precisamos? Tem saída que não implique em concentração de riquezas e destruição ecossocial?

 



[i] Esta postagem tem origem numa intervenção minha feita no Simpósio Especial “Alternativas do Desenvolvimento e Bem Viver”, como parte da programação de XIV RAM – Reunião de Antropologia do Mercosul, de 1 a 4 de agosto de 2023, na UFF, Niterói, RJ.

[ii] O Plano Marchal (general do exército dos EUA, secretário de Estado do Truman) é um grande pacote financeiro de bilhões de dólares em condições favoráveis para os países europeus, de 1948 a 1951, que veio junto com a instalação de batalhões militares americanos  em seus territórios, em nome da defesa diante da ameaça “comunista”. Nisto também veio a criação da OTAN.

[iii] O machartismo lembra o Joseph McCarthy, influente senador, que de 1950 a 1957 animou uma “caça às bruchas” no meio intelectual, cultural, cinematrográfico e sindical dos EUA, em nome de combate ao comunismo interno.

[iv] O “S”, de Social, no BNDE foi acrescentado nos anos 1980.