sábado, 18 de maio de 2024

A Dor da Catástrofe e a Força para Dar a Volta por Cima

 


O também meu Rio Grande do Sul – o afirmo com profundo sentimento de uma espécie de migrante em relação à sua origem – onde famílias choram a morte de entes queridos e milhares sofrem a destruição de suas condições de vida, por um “dilúvio” devastador, está diante do desafio de se refazer e seguir a vida. Energia e determinação do povo sei que é algo intrínseco da “cultura gaúcha” e me sinto parte dela. Mas por mais importante que seja esta força cultural, será que ela poderá barrar os “donos do poder”, sempre atentos a possibilidades de negócios? Para eles, nada como uma calamidade para novas frentes de acumulação fácil, mirando os enormes recursos públicos que o governo federal terá que destinar para a reconstrução. As grandes empresas “abutres”  – empreiteiras de obas públicas, construtoras,  seguradoras, o trator de arrasto do agronegócio, entre tantos outros – ficam de prontidão em tais ocasiões e nunca irão se engajar numa reconstrução virtuosa do que são os territórios de vida e identidades das comunidades atingidas: seu lugar e endereço, seu lar, local de convivência com seus familiares, amigos e antepassados, de celebrações religiosas e festas?

Como milhões de brasileiras e brasileiros, passei dias sofrendo com a catástrofe e pensando em como contribuir, além da solidariedade na emergência, com ideias, reflexões e propostas sobre o que e como reconstruir as bases da vida quando tudo ou quase foi perdido. Não duvido da força das comunidades locais e de sua determinação em dar a volta por cima. Duvido muito de governantes e empresas, com seu “mantra do desenvolvimento”, que daí possa sair algo de novo, que fortaleça a resiliência de comunidades gaúchas, sua vibrante cultura e seus territórios de vida, diante da mudança climática em curso.

Antes de tudo, penso que precisamos valorizar e celebrar a solidariedade que brotou com força do seio da sociedade civil gaúcha e brasileira em relação às vítimas, prestando ajuda de emergência às milhares de famílias atingidas pelo dilúvio. Este é um gesto claro de se sentir parte e compartilhar diante de ameaças, o que dá esperanças renovadas no caminho de transformações que precisamos no modo de viver, no grande território do Brasil que nos cabe cuidar, enquanto um coletivo nacional de mais de 2012 milhões. Também saúdo a presteza e eficiência de setores governamentais para ações de emergência, do RS, de muitos Estados Brasileiros e do Governo Federal. A solidariedade e o acolhimento nestas ocasiões, com profundo sentido ético, indispensáveis ao viver,  apontam o cuidado, a convivência e o compartilhamento entre todas e todos. Está é uma potência que surge do seio da sociedade civil brasileira, uma base política indispensável, já existente, que pode ser mobilizada para a democracia ecossocial transformadora que precisamos. Ou seja, de algum modo, estão no nosso seio potentes atitudes e gestos de construção e de reconstrução de uma sociedade que tenha lugar para todas e todos, de direitos iguais, respeitadas as muitas diversidades.

Mas como isto pode inspirar as cidadanias locais, estaduais e brasileiras para pressionar politicamente o Governo Federal  e o Congresso, o Governo Estadual e a Assembleia Legislativa na busca de soluções que sejam baseadas em direitos ecossociais? Não podemos aceitar que a reconstrução se resuma a uma política de financiamento público para grandes obras, reconstruindo mais ou menos o mesmo, sem realmente mudar. Pior ainda,  ser apenas um grande aporte de recursos extraordinários que acabam se resumindo a uma oportunidade e frente de expansão de grandes negócios, com corrupção, como tem sido uma regra dominante. A reconstrução necessária é a que busca valorizar as potências e condições de vida locais, com perspectiva de direitos ecossociais, empoderando as comunidades em convivência com a dinâmica ecológica de seus territórios diversos. A hora é de reconhecer e valorizar a especificidade local. Não há um modelo único, por mais que o projeto seja tecnicamente bem feito, não será virtuoso sem considerar as especificidades ecológicas, vivências,  aspirações e culturas locais. Afinal, as cidades e as comunidades, assim como seus próprios territórios, são diversos e vibrantes por isto mesmo. Trata-se de uma grande oportunidade de olhar, descobrir e praticar a mais radical participação local, num esforço de busca coletiva de soluções entre sociedade civil e os setores do poder governamental, depois que venham as empreiteiras fazer o que sabem e podem. Neste momento, a primeira e fundamental reconstrução é da esperança no interior das comunidades atingidas, como base não só para uma superação possível, mas como um recomeço de um amanhã que pode ser melhor. Para a reconstrução ser virtuosa e de enfrentamento das ameaças, os atores mais fundamentais são exatamente os atingidos, suas comunidades locais, com a colaboração de ativistas, educadores, especialistas em questões ecológicas, agrícolas, de arquitetura e engenharia, identificados com as demandas da população local e que sabem ouvir e valorizar as demandes de gente que faz sua vida aí. Neste esforço coletivo amplo, com determinação de buscar as potencialidades de cada território e de sua comunidade, poderá ser recriado um novo mais resiliente e, ao mesmo tempo, mais com a cara da gente local e seu território.

As comunidades territoriais atingidas precisam, sem dúvida, de infraestrutura, mas com nova inspiração diante da necessidade de adaptação às dinâmicas de territórios submetidos à força das mudanças climáticas, que já estão acontecendo. Trata-se de refazer bases resilientes no modo de viver, especialmente produção e modos de organização da ocupação humana. Trata-se de lançar as bases ecossociais de organização de comunidades assentadas no cuidado e convivência, na relação e respeito ao território, no seu uso e preservação, nas regras de regulação ambiental e seus órgãos, na economia e, por fim, até no modo de conceber,  implementar, avaliar e aperfeiçoar as políticas públicas. O desafio é enquadrar os que devastam a vegetação nativa e as florestas, secam os banhados e alagadiços (esponjas naturais de armazenamento de águas), desmatam as encostas e, especialmente, acabam com as matas ciliares nas margens dos rios.  Afinal, dada a monstruosidade da tragédia, é fundamental trazer a vida, todas as vidas, humanas e não humanas, ao centro de uma reconstrução para um viver saboroso, sem ameaças. A natureza em si não é uma ameaça, é um dom e um bem essencial para viver. Está em questão o modo como a habitamos e a gerimos.

O maior causador da tragédia ecossocial ocorrida no RS é o desenvolvimento econômico movido em busca do lucro, destruidor e extrativista. Nunca é demais lembrar que o Rio Grande do Sul foi o pioneiro no estabelecer as bases do agronegócio e sua monocultura baseada em adubos químicos, agrotóxicos, sementes transgênicas. Daí, foi em direção ao Oeste e Centro, conquistando, desmatando, colonizando.  Mas também o RS nos deu um dos primeiros grandes pensadores e ativistas por mudanças na nossa forma de se relacionar com a generosa base natural que temos, o José Antonio Lutzenberger (17/12/1926 – 14/05/2002). Ele já havia, no então, alertado para o que poderia ocorrer no RS com o tipo de economia e o modo extrativista dominante. Foi também o inspirador e liderou o grupo que formulou um virtuoso Código Ambiental para o RS, desfigurado completamente por governos do período mais recente, especialmente o atual governador (já no primeiro mandato) e a sua maioria na Assembleia Legislativa.

Na verdade, precisamos nos convencer que não há uma solução ou resposta única para a grande área do Estado do RS, o número assustador municípios atingidos de algum modo e a enorme população diretamente afetada em suas condições de vida. De algum modo, há um problema no todo, dado que a mudança climática está longe de ser um fenômeno local. Mas as soluções tem que ter raízes locais com um enfoque de “territórios de vida”, para quem vive nele e dele depende, como um bem comum a ser cuidado e não exaurido, com sua potencialidades e limites, como nos ensinam Povos Indígenas e Tradicionais, assim como as muitas redes de agroecologia que se expandem pelo país. Enquanto prevalecer um enfoque de ocupação de áreas como “território de negócio”, de extrativismo e exploração, voltada para fora dos territórios, em vista de lucros o mais rápido e maior possível, as ameaças só serão intensificadas e cada vez mais destrutivas. [i] Estamos diante da oportunidade no Rio Grande do Sul – onde surgiu o Fórum Social Mundial por Outro Mundo Possível – de “recomeçar” buscando inspiração em novos paradigmas de viver, do local ao mundial, onde “muitos mundos cabem no mesmo mundo”, na genial síntese dos Zapatistas.

Que fique bem claro: emergências, quando muitas vidas humanas, inclusive não humanas, estão em questão, devem ser tratadas por ações de emergência como um direito fundamental, salvando vidas.  Reconheço que isto está merecendo a devida atenção governamental e despertou ampla solidariedade local e no Brasil inteiro. Mas e depois? Se surgiu a emergência é por ações humanas que as produziram, com responsabilidades diferenciadas, entre governos e atores empresarias, nas várias áreas. Há também responsabilidades no nível das comunidades locais, no modo como vivem e convivem com as condições locais. O grande desafio de enfoque e de prática social na reconstrução de vidas e meios de vida é a convivência com as potencialidades do local em que se vive. Algumas grandes obras acabam sendo necessárias porque nos ligam ao todo e porque precisamos todas e todos de bens e serviços para viver que só podem ser produzidos de forma mais complexa e concentrada em outros territórios e cidades. Esta visão de um paradigma de convivência com as potencialidades dos territórios se alarga em círculos, onde os locais formam conjuntos territoriais maiores integrados. A solução local é uma forma de reconstrução do global, onde não é o global que determina, mas o “global” (estadual, regional, nacional, internacional e mundial ) é a virtuosa integração dos “locais”. O princípio fundamental da convivência dos povos também deve reger o mundial como condição de preservação da integridade natural do próprio planeta, como bem comum da humanidade inteira e com a responsabilidade de conservá-lo para futuras gerações.

Sei que muita gente vai reagir desprezando o fundamental que é o “fazer de outro jeito”  aquilo que estamos fazendo, seja lá no Rio Grande do Sul, mergulhado numa catástrofe por intensas chuvas, ou em qualquer outra parte do Brasil e do mundo, como mostram as informações que circulam diariamente, nos meios de comunicação e nas redes digitais. Mas nossa parte, como brasileiras e brasileiros, é aqui, neste território grande e complexo de muita diversidade territorial e modos de viver, em que se forjou o Brasil com um trágico começo de conquista e desmatadores, dominado por colonizadores e extrativistas,  contra os Povos Indígenas Originários e com trabalho escravo, chagas dolorosas, nunca verdadeiramente extirpadas de nosso seio. Hoje fazemos o mesmo contra as maiorias que vivem em periferias urbanas e rurais, em biomas diversos, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. As emergências se tornaram uma espécie de “normalidade” entre nós, só variando onde acontecem e quando, em termos de territórios e comunidades atingidas.

A natureza não é a culpada pelas catástrofes. Pelo contrário, é o nosso modo de viver que as gera. Não há modo de viver sem se relacionar com a natureza, nossa grande Mãe Terra, tão bem definida pelos Povos Originários e Tradicionais. Este grande bem comum fundamental, com todos os complexos sistemas ecológicos que o movem, está sendo sistematicamente agredido pelo tipo de civilização e seu desenvolvimento movido pela busca de acumulação. A tarefa de mudança é hercúlea, mas inadiável. O desafio é começar por onde é mais urgente, no momento, e ir aprendendo o que e como fazer.

Companheiras e companheiros do Rio Grande do Sul, estamos juntos na empreitada cidadã de reconstrução democrática ecossocial virtuosa dos territórios de vida de vocês, que também é parte de nós todas e todos. A hora é  arregaçarmos as mangas, desde o lugar de cada uma e um, neste imenso Brasil, e fazer a parte fundamental – participar  com determinação e força – que cabe a nós e não podemos renunciar. Afinal, em democracia, como cidadanias diversas, somos as únicas forças instituintes e constituintes, não o Estado ou o Mercado. Mas como estamos longe disto!



[i] A contraposição entre “territórios de vida” em relação a “territórios de negócio” foi brilhantemente desenvolvida pelo grande geógrafo brasileiro Milton Santos.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Recuperar o Sentido do Comum e do Pertencimento: Uma questão central para uma democracia intensa

 

Estamos diante de um novo e enorme desafio para continuar a sonhar e acreditar que, por um virtuoso processo democrático, poderemos fazer as transformações ecossociais necessárias em busca de direitos iguais na diversidade, proteger a integridade do comum natural e criar modos saborosos de viver. O sonho democrático reemergiu com potência no Brasil com a vibrante onda de renovado sindicalismo e novos movimentos sociais dos anos 80 do século passado. Foi fundamental, também, o movimento da Anistia e a pactuação de forças expressa no “Diretas Já”.  A participação de cidadanias ativas diversas foi decisiva na luta contra a violenta ditadura militar e alimentou o processo de institucionalização democrática com a Constituição de 1988.

Conquistamos assim uma base legal fundamental, ainda em vigor, mas insuficiente por si só para uma democracia virtuosa. A tarefa das cidadanias apenas começava e não havia acabado. Fazer democracia exige um processo de engajamento contínuo e intenso no seio da sociedade civil, em suporte e mais além do que podem fazer as instituições de poder e as políticas públicas estatais. O resultado que temos está aí: uma democracia de importantes avanços, mas encurralada. Mudamos, sim, mas pouco e sem perspectivas de sair de um atoleiro complexo. Não estamos conseguindo avançar em transformações nas estruturas e processos de destruição e exclusões ecossociais que remontam à era colonial e parecem impossíveis de serem enfrentados. Pior ainda, voltamos a viver uma situação clara de ameaças à própria democracia duramente conquistada.

Com estratégias como a Lava Jato e o Golpe Parlamentar de 2016, entramos num processo de desconstrução das mais importantes conquistas democráticas de direitos e políticas públicas, até então. Tudo agravado com a perda eleitoral, em 2018, para um capitão truculento, com firma adesão da direita empedernida e com o apoio de amplos apoios de setores médios e populares, com discurso autoritário e com cumplicidade de oficiais militares e total adesão do financismo parasitário. O governo de direita entre 2019-2022, com aberta proposta autoritária de aprofundamento capitalista, “abrindo a porteira e deixando a boiada passar”, foi destrutivo de tudo que apontasse para direitos ecossociais e para pobres, altamente nocivo à democracia.  Não foi novidade se olharmos a nossa história,  onde sempre prevaleceu  um capitalismo assentado na destruição e exclusão ecossocial, voltado para fora e sem regulação.

Retornando ao nosso processo político mais recente, dos últimos 10 a 15 anos, é forçoso reconhecer que estava ocorrendo uma profunda transformação no seio da própria sociedade civil e que o bloco democrático-popular não havia dado a devida importância. Este processo, contando com poderosa estratégia de comunicação, financiada e articulada até pela extrema direita mundial, difundiu ideias e teses autoritárias e excludentes. Por pouco, muito pouco, não entramos numa nova etapa e nova forma de regime autoritário. Felizmente conseguimos conter temporariamente tal onda com a apertada eleição de 2022, quando venceu a ampla aliança em torno a Lula.

Mas estamos longe de celebrar o fim da ameaça à nossa frágil democracia. Na verdade, o que temos dificuldade de admitir é que estamos diante de uma direita contrária a qualquer forma de democracia participativa e transformadora. O câncer destrutivo já está fortemente implantado na sociedade brasileira, com apoios amplos dos setores do atraso, como agronegócio, mineração, milícias e crime organizado, redes mundiais da direita autoritária, além dos mercadores da fé. Além disto, está demonstrando grande habilidade em termos de comunicação, com fakenews, em disputar hegemonia política, no sentido de definir sentidos e rumos para o Brasil.

O que conhecemos de nossa triste história de colonização e massacre dos Povos Originários, da selvageria da escravidão, do mandonismo expresso no coronelismo e patriarcalismo, da truculência militar e dos milicianos a seu serviço, entre tantos “desastres”, tudo ajuda a entender as raízes históricas do que somos como país. Mesmo os muitos estudos e debates mais recentes, sobre dependência, centro-periferia, imperialismo, militarização e a globalização capitalista, tudo, sem dúvida, nos moldou e ajuda a entender o complexo que temos de exclusões, desigualdades, dominação e destruição. Por isto, são aspectos importantes em qualquer análise.

No entanto, os elementos acima são o quadro de fundo e não bastam para entender as especificidades de cada conjuntura política em nosso país. Precisamos, analítica e politicamente, avaliar como se forjam as correlações de forças políticas no momento presente e as “brechas” para ação. Isto é indispensável para qualquer ativismo e fazer político, mas especialmente para avaliar possibilidades e momentos para avançar com processos transformadores. Aliás, quem prega autoritarismo e combate a democracia também precisa avaliar os momentos e oportunidades nas correlações de forças.  Ou seja, sempre é e será fundamental entrar profundamente nos processos políticos internos de construção e disputa de hegemonia política. Trago isto para que tenhamos claro que precisamos nos entender a nós mesmos, ver quem é quem, o que se pensa e se “prega”, quem se comunica com quem e como isto chega até nós, aos nossos lares, espaços de vivência e trabalho, territórios, enfim, onde levamos a vida. Só para reforçar este ponto, o que considero potentes movimentos de cidadania ativa são aqueles movimentos sociais e políticos que fazem de tal tarefa de diagnóstico o seu alimento do dia-a-dia, permitindo ver onde há saídas e como agir.

Nesta altura, avanço uma hipótese de análise que aponta um grande desafio político do presente momento político nacional. Não estamos dando a devida atenção e importância ao “estrago” que a direita autoritária já fez, está fazendo e ainda poderá fazer com sua estratégia de construção e disputa de hegemonia política na sociedade brasileira. A “ficha ainda não caiu” para a maior parte das cidadanias ativas pela democracia ecossocial transformadora. Precisamos fazer constantemente uma avaliação política consistente e de um ponto de vista democrático do que esta direita renovada representa como força política e, assim, saber como avançar e onde incidir.

Temos muitos dados e estudos sobre as raízes coloniais e econômicas capitalistas de nossas destruições, exclusões, violências e desigualdades, com um poder estatal subserviente aos donos de gado e de gente. Este é um dado estrutural que trava da democratização mais profunda de nossa sociedade. Expandimos e crescemos, mas sempre destruindo a base natural e em benefício de poucos, pois até hoje somos um país voltado para fora e dependente de mercados globais, de costas para as maiorias que aqui vivem.

O que nos faz falta? Se as cidadanias em sua diversidade são os sujeitos instituintes da democracia estatal pelo voto, por que ficamos esperando mais intensidade do poder estatal nas transformações econômicas, ecossociais e políticas e não fazemos valer mais o nosso poder coletivo de propor e exigir tal intensidade? Afinal, o encurralamento da democracia é algo que revela o que somos como cidadanias ativas democráticas. Somos nós, cidadanias, que delegamos poderes  aos mandatados, pelo voto, para gerir as instituições estatais. Eles são e sempre serão dependentes das cidadanias que, soberanamente, os empoderam em funções estatais. Soubemos acabar com a ditadura décadas atrás, mas... cadê as propostas e as reformas de base? Como continuamos disputando ideias, princípios, valores e direitos numa sociedade fundada na exclusão e desigualdade? Sim, conquistamos políticas emergenciais e compensatórias, mas elas não avançam em direitos e transformações. Assim, ficam grandes e incontornáveis questões sem solução democrática a vista, o que gera um ambiente propício à volta de novas ameaças da direita, destrutivas da democracia enquanto modo de viver coletivo.

A política, por definição, é disputa, luta de classes, motor da história. Mas esta luta não é tão simples como a afirmação, pois existem nuances, divergências e alianças, rupturas súbitas, aventuras e surpresas. Enfim, trata-se de um processo político em permanente ação, tensão e evolução, para lados muitas vezes imprevisíveis. As democracias não são o fim de conflitos no seio da sociedade, mas são um pacto para a disputa segundo regras legitimadas e institucionalizadas de disputar, como virtude construtora em busca do possível na correlação de forças da conjuntura. Sim, rupturas são parte da história, até de democracias. Mas a proposta de democracia não passa, politicamente, de pacto sobre regras para o conflito de classes que move as sociedades, em busca de acordos possíveis. Por isto, para mais e mais democracia precisamos de mais e mais participação de cidadanias ativas e radicalizadas por direitos, os mais iguais e includentes possíveis, em cada momento histórico. A democracia não elimina o confronto de forças, mas se alimenta de tais lutas para gerar soluções possíveis para o momento histórico da correlação de forças sociais. Exige vigilância e participação permanente, Em princípio, não existe limite para propostas de leis e políticas serem aprovadas, desde que respeitadas as regras. Aliás, as próprias regras podem ser disputadas, sempre em disputas legítimas definidas na Constituição. Por sinal, até as Constituições podem ser mudadas se assim for o desejo da maioria. E o caso de “revoluções democráticas”, como o 25 de abril de 1974, em Portugal. Mas para gerar a “vontade coletiva” e, portanto, a demanda do que o Estado deve fazer para garantir direitos, primeiro temos que olhar para a sociedade, agir no seio da sociedade civil e disputar hegemonia política em busca de “direção intelectual e moral” do processo político coletivo, como bem define Gramsci.

A questão da hegemonia é sempre uma questão central em política. Hegemonia democrática tem que ser construída a partir do chão da sociedade: sentidos, princípios, valores, ética, direitos individuais e coletivos, identidade coletiva, propostas e políticas efetivas. Mais, qualquer política democrática só pode avançar por pressão participativa das cidadanias.

Este é e será o pano de fundo da política e das suas relações de forças sociais. A realidade histórica concreta de uma sociedade se move pela luta e participação entre as diferentes forças, com transformações, empates, recuos, tudo sempre momentâneo e não permanente, apesar dos tempos serem extremamente variáveis. O próprio processo de disputa pode levar a conflitos destrutivos e devastadores, como guerras internas ou entre diferentes agrupamentos nacionais, na realidade do mundo atual. O fato essencial, para a democracia, é a luta legítima em busca de mais e mais direitos, assentada na participação. Jamais a participação democrática se resume às eleições e ao voto amplo. Greve, ocupação, mobilização nas ruas, celebrações cívicas, passeatas, etc. fazem parte da luta democrática. Nas lutas, sempre é possível diagnosticar os interesses envolvidos, os princípios e valores éticos defendidos, os modos de ver e agir das forças em luta, as grandes propostas mobilizadoras. Isto é construir e disputar hegemonia como projeto de sociedade.

Estabelecido isto, volta à nossa situação atual, brasileira e, num certo sentido, regional e mundial. Estamos diante de uma direita que sempre esteve entre nós – hoje hegemonizada pelas forças capitalistas em busca da acumulação sem limites, nos vários domínios sociais da atividade humana. Mas, politicamente, estamos diante de um poderoso processo de renovação da parte das classes dominantes menos propensa a aceitar o princípio democrático de cidadania para todas e todos. Esta nova direita – cunhá-la de fascista não resolve o problema de fundo de quem ela é – tem uma estratégia política de afirmar seus interesses e valores como universais, para cada nação e o mundo como um todo. Ela vem investindo muito e elaborando discursos de modos de ver e propostas políticas para o modo de organizar a sociedade como um todo. Isto lhe dá coesão e vitalidade e nos leva à defensiva. Pior, estão conquistando adesão ampla em extratos médios e até no meio das classes sociais mais precarizadas, no Brasil e em muitos outros países estratégicos. Estamos diante de uma nova onda capitalista, para além da globalização das últimas décadas. Enfim, queiramos ou não, estamos com uma democracia encurralada e nós, cidadanias diversas que comungam princípios e valores democráticos ecossociais, também perdemos o protagonismo ativo no processo democrático.

Estamos diante de uma direita que está sabendo se renovar na defesa de seus interesses, ao menos mais do que nós que lutamos por democracia ecossocial transformadora. Há um ponto central em qualquer construção e disputa de hegemonia democrática que cabe destacar aqui. A construção de modos de pensar, de ver problemas e questões, de propor soluções e de exprimir isto tudo em ideias mobilizadoras que levam à ação, ao engajamento político.

Não falamos muito a respeito, mas o fato é que perdemos o protagonismo nas ruas. Hoje é a direita que vem se mobilizado, protestando e, até, organizando atos públicos com grande participação. A estratégia mais importante desta direita renovada é a comunicação, especialmente em redes sociais digitais  para atingir amplos  setores populares. Com falsidades? Sim, mas não só.  Além disto, com “mercadores da fé”no meio popular, de inspiração na direita norteamericana, pregando o individualismo extremado e a virtude da meritocracia, numa moral individualista de lutar por ganhar, onde Deus abençoa e recompensa os vitoriosos. Trata-se de uma versão religiosa da busca do interesse individual capitalista a todo custo, onde vence o mais competente, sem limites quanto a todos os demais. Tal individualismo extremado legitima o capitalismo como sistema de  “vitoriosos por mérito”. Não cabe aí nenhuma ideia de igualdade de direitos, fundamental nos processos de democratização, por sinal, processos sem limites enquanto sonho e desejo.

Para começar e tentar mudar, temos que reconhecer que, na disputa de hegemonia, a direita e sua “pregação” por poderosas redes sociais de comunicação, generosamente financiadas por grandes empresas, e  pela adesão dos mercadores da fé, nos levaram a um impasse ou, ao menos, ao curral em que estamos cercados, sem ver muitas saídas. O fato de termos ganho a eleição de 2022 não quer dizer que as cidadanias democráticas voltaram a ter hegemonia. Basta ver a composição do Governo Lula III para entender o encurralamento em que nos encontramos. Sem dúvida, é melhor do que um novo mandato para a extrema direita liderada pelo inominável. Mas não estamos enfrentando o problema de fundo que impede o avanço da democratização. E lá já se foi mais de um terço do mandato do atual governo.

Antes de tudo, precisamos diagnosticar profundamente a estratégia de comunicação a serviço do “boslonarismo”. Não basta o poder Judiciário fazer o que faz, criminalizando as tais “fakenews” e seus produtores e emissores, com cumplicidades dos super ricos proprietários das plataformas digitais. Precisamos nós mesmos entrar na luta da comunicação, de sentidos e rumos da democracia para o Brasil de direitos ecossociais na diversidade do que somos. São duas frentes de luta, do poder democrático instituído, e as lutas da cidadania no seio da sociedade. A virtude não vai vir do poder, pois se vier só pode vir do campo da sociedade civil e de suas cidadanias ativas.

Termino voltando ao título. A estratégia de comunicação a serviço da direita renovada está nos levando de volta a uma situação de perda do comum que nos une, pois acentua a sua diferença de valores e princípios que justificam a exclusão de amplos setores já hoje marginalizados e periferizados. Eles estão sabendo articular os fundamentos clássicos da direita e do fascismo e de autoritarismos  passados – “Deus, pátria e família”, mas de forma renovada, buscando a adesão de setores médios e populares, a meritocracia como virtude e não privilégio, a própria religião como definição de identidade comum numa concepção étnica excludente em termos de nação, que leva  a combater migrantes e os “diferentes”, praticam o machismo e aceitam a violência como legítima defesa, negam a ciência e a mudança climática, estimulam a colonização e ocupação de terras de Povos Originários e Tradicionais.

Enfim, estamos perdendo a disputa das ideias e propostas. E estamos em perigoso processo de perda de sentido do comum e do pertencimento à coletividade, essenciais para construir democracia. Isto é particularmente grave no meio mais popular das classes marginalizadas.

domingo, 7 de abril de 2024

A Democracia Brasileira diante das Heranças que a Ditadura Militar Deixou

Mesmo não recebendo maior atenção do Governo Lula, os 60 anos do Golpe Militar e a implantação da ditadura foram priorizadas por intelectuais e ativistas de esquerda, com muito boas análises sobre aquele momento histórico, inclusive com reavaliações de análises passadas e levantando novas questões. Tive acesso a algumas de tais análises, especialmente aquelas que foram publicadas nos meios digitais alternativas, voltados às temáticas mais democráticas e de esquerda.[i] Mas meu foco é a atualidade e o como a ditadura militar nos afetou profundamente como sociedade, somando-se à muitas mazelas que vem desde a conquista e colonização.

É possível acreditar em dias melhores no amanhã, tanto para si e o núcleo familiar como para o conjunto da sociedade e até todos os povos do planeta Terra. Esperançar faz parte do ir levando a vida. Claro, sempre podemos optar por um caminho individual, de agir e vencer a qualquer custo, em busca do próprio interesse. Mas fazer isto é mergulhar na lógica de um sistema que aposta no interesse individual como regra dominante de viver, onde vencerão os mais competitivos, mesmo explorando e dominando todos os demais. Esta é a regra imposta pelo próprio do capitalismo eurocêntrico, com suas variantes específicas em função da história de cada um dos povos dominados e a seu serviço e sua centralidade de tipo imperial.

Na verdade, a vida se vive em coletividades, queiramos ou não, pois sempre dependemos de relações, estruturas e processos econômicos, sociais, políticos e culturais, forjados ao longo da história, que delimitam possibilidades e limites concretos, muito além de vontades individuais. Para mudar e sonhar com outro mundo, bom e saboroso para se viver, onde todas e todos caibam, precisamos mudar a lógica de exploração, dominação, assim como o processo de destruição sistemática da própria natureza, praticadas pelo capitalismo globalizado pelas grandes corporações econômicas e financeiras, dos 1% super ricos. A tarefa prioritária é plantar raízes democráticas transformadores a partir dos territórios em que vivemos. Isto não podemos esperar de outros povos ou transferir responsabilidades que são nossas em primeiro lugar.  Claro, dinâmicas e processos mundiais mais favoráveis  sempre são importantes, mas não suficientes. Temos que fazer a nossa parte, lá onde levamos a vida, com suas especificidades.  No entanto, nunca podemos esquecer que estamos diante de uma trama histórica coletiva, com raízes profundas e suas heranças.  Para mudar sempre  é e será indispensável saber o que fazer, onde  e como incidir.

Lembro isto tudo para situar o indispensável que é, para nós como povo ou a maioria dele, entender e nunca esquecer as malditas heranças, em particular as mais recentes,  deixadas pela ditadura militar de 1964 a 1985. Elas interferem no nosso cotidiano e são parte de nosso modo de viver atual, mais até do que comumente admitimos. Tal herança reforçou e aprofundou relações violentas de exclusão social, uma chaga que nunca foi enfrentada como prioridade política absoluta. A democracia que conquistamos com a Constituição de 1988 é uma proposta política institucional importante, mas o fazer a democracia vai além, pois se trata de disputar  no dia-a-dia, até hoje, em muitas frentes, tendo a ditadura e todo o passado como ameaça concreta, tanto para as conquistas de direitos de cidadania iguais na diversidade, como para as políticas públicas que deem conta de atendê-los. Basta lembrar aqui o que nos foi imposto recentemente, em contexto democrático, pelo golpe de 2016 e depois pela vitória do governo de extrema direita, que admitiu publicamente a sua inspiração  na ditadura, com propostas e políticas ecossociais mais excludentes e destrutivas ainda mais fortes. Aliás, o militar capetão, que nos governou recentemente, foi ativo nos anos 1980, quando se deu o vigoroso processo de mobilização cidadã pela volta da democracia. Mas, de toda forma, a ditadura deixou malditas heranças vivas, além de reativar velhas como o racismo, o patriarcalismo e o colonialismo, com muita violência e assassinatos, como política vinda de dentro do regime.

Neste ano de 2024, sessenta após o golpe militar, somos muitos mais numerosos que naquela época. Aliás, a grande maioria do que é a população brasileira atual não viveu aqueles 21 anos de ditadura. Éramos um pouco mais de 82 milhões de habitantes do Brasil em 1964 e 145 milhões no ano em que foi aprovada a nova Constituição, em 1988, e chegamos a 176 milhões em 2015. Pelos dados mais recentes, de 2023, éramos um pouco mais de 215 milhões. A própria definição de cidadania política mudou, pois desde 1945 até 1988 o direito de votar continuou limitado aos alfabetizados e com 18 ou mais anos. Só a Constituição de 1988 ampliou tal direito de votar a todas e todos a partir dos 16 anos, sem limites.

Então, por que lembrar e discutir a mais recente ditadura se a maioria de hoje não viveu aquele período autoritário? Simplesmente, porque convivemos com mazelas de todo tipo desde a conquista e colonização, mas a elas se somaram algumas novas formas de barbárie e as velhas foram radicalizadas no período da ditadura militar. A maioria de hoje  não merece continuar convivendo com elas. Não as extirpamos ainda, pois não fizemos um virtuoso processo democrático de diagnóstico e reparação, com pesquisa profunda de memória e verdade, condenando os responsáveis pela repressão, tortura e morte. Nem avaliamos plenamente a destruição ecossocial promovida, tanto em termos de geração da fome,  miséria e pobreza, como de conquista, colonização e destruição da integridade do grande patrimônio comum natural para a nossa vida. Tudo isto continua mais ou menos  sendo o nosso cotidiano nos dias de hoje: um modo de vida e produção sociamente excludente e destrutivo, aperfeiçoado pela ditadura militar. O tal “milagre econômico” da época, especialmente primeiros 10 anos, gestou uma “casta” de super-ricos, vivendo na abundância, com enormes periferias urbanas e rurais, composta por população pobre e excluída, submetida ao controle do crime organizado de traficantes e milícias. E depois, desde meados dos 1970 com as mudanças nas condições econômicas globais, mergulhou o país  numa galopante inflação e uma impagável dívida externa, enfrentadas prioritariamente pela democratização nos anos 1990.

Mas a questão que considero fundamental é a disputa de narrativas hoje. Não temos como avançar politicamente e construir hegemonia de democracia ecossocial transformadora, para cuidar de gente e da natureza, sem focar o projeto que a ditadura priorizou: alavancar o capitalismo dependente, assentado no extrativismo e no agronegócio, voltado à produção de commodities para exportação, de costas para o Brasil, lógicas dominantes e determinantes até hoje. A “recolonização” da Amazônia e do Cerrado brasileiros, que continua, contra Povos Indígenas e Tradicionais - uma das piores heranças de ordem ecossocial –, foi empoderada pela estratégia militar do “Brasil Grande”. A concentração da terra se ampliou escandalosamente, produzindo muitos  sem terra e expulsão do campo.  A isto podemos somar o modelo de geração de energia elétrica com as grandes barragens hidrelétricas, expulsando populações ribeirinhas inteiras, deixadas à própria sorte, como estamos vendo com Belo Monte em contexto democrático. Claro, o regime militar avançou na industrialização mas com dependência de capitais multinacionais e empresas estatais a seu serviço, valendo-se da mão de obra barata propiciada pela migração interna de zonas rurais, em grande escala e a empurrando para as periferias das grandes metrópoles. Basta lembrar que o salário mínimo – referência ainda hoje para uma maioria de assalariados – foi submetido a uma política de arrocho salarial. No final da ditadura era algo como um terço do que havia sido uns 40 anos antes.

Não podemos esquecer de jeito nenhum  que tudo foi implantado com o uso e abuso da mais pura repressão violenta sobre opositores, trabalhadores e populações periféricas que ousavam protestar. Também foi a ditadura que criou o tipo de Polícias Militares que temos, como forças auxiliares das Forças Armadas e com ação prioritária contra negros e pobres, com assassinatos, nunca para garantir o direito de segurança pública. Até hoje pouco avançamos sobre estas questões, pois parece que ficamos satisfeitos com uma democracia de baixa intensidade. É fundamental  mapear e enfrentar democraticamente tais questões  estruturais  vigentes, espécie de modo de viver para as gerações atuais, lógica aprofundado pela ditadura.

Ou seja, ficando no que venho insistindo de diferentes ângulos – a disputa de hegemonia de um modo de pensar, agir e viver democrático intenso, com base ecossocial – a ditadura militar continua sendo uma erva daninha no chão da sociedade, na cultura, nas vivências cotidianas, no caos social, nas milícias, na repressão policial, nos privilégios e corrupção, nos desmandos de poderosos e, ainda, nas ameaças autoritárias como a que abertamente foram praticadas pelo inominável  do governo passado. Aliás, as forças políticas que apoiam uma direita autoritária e excludente estão tendo maior iniciativa em termos de narrativas do que fazer do que as cidadanias ativas do campo democrático. E o fazem “sem medo nem  pejo”, até com orgulho e ações abertas, à plena luz do dia. A ameaça é real, porque o mal herdado da ditadura só não vê quem não quer. Ou pior, prefere dar as costas e deixa rolar. Até quando?

 



[i] Desculpo-me por não trazer a relação aqui, pois creio que existem muito mais autores e análises, a que não tive acesso e que merecem ser lidas e debatidas. Apesar dos limites e dificuldades que enfrentam os meios digitais alternativos ao nosso alcance, em geral sem apoio de fundos públicos, é neles que podemos encontrar o melhor do campo crítico e compromissado com a radicalização da democracia brasileira.

domingo, 24 de março de 2024

Por Que a Nossa Democracia Continua Encurralada?

 

Volto a uma questão central em minhas análises e reflexões sobre a democracia de baixa intensidade que temos. A conjuntura política atual me impõe tal questão. No início do Governo Lula 3 levantei a hipótese do desencurralamento da democracia brasileira como um necessidade e uma possibilidade, desde que...houvesse  tal objetivo estratégico e vontade política. Mas parece que estamos mais patinando do que avançando com determinação no enfrentamento de uma questão central para sonharmos com uma democracia ecossocial transformadora, em busca de direitos de igualdade na diversidade, como forma de cuidar de gente e da natureza.[i]

Já se foram um ano e alguns meses do Lula 3 e até agora não vejo sinais de desencurralamento a partir do Poder Executivo, que recebeu nosso voto vitorioso na última eleição. As maiores novidades ainda continuam sendo produzidas pelo Poder Judiciário, num lento mas virtuoso processo institucional, que cabe a ele mesmo, de desmonte e condenação dos responsáveis pela trama criminosa de golpe que vinha sendo armado desde o Palácio do Planalto, pelo governo da extrema direita. Seu papel é este mesmo, dentro da institucionalidade democrática. Mas isto tudo é pouco diante dos desafios que temos para voltar a acreditar e sonhar que “outro Brasil é possível”. Retomada de políticas sociais, praticadas no período dos governos petistas de 2003-2016, vem se mostrando importante, mas por si só é pobre para a reconstrução democrática necessária. Precisamos, sobretudo, voltar a pensar e construir estrategicamente um projeto de país de democracia viva, que supõe disputar e conquistar hegemonia democrática desde o chão da sociedade. Lamentavelmente, tal tarefa é adiada, em nome da governabilidade. É isto que queremos? Ficar patinando e se contentando com pequenos avanços aqui e ali? Deixar a extrema direta definir a agenda e o quanto dá ou não dá para avançar? Isto não é ter um projeto democrático!

Será que o Governo Lula tem alguma estratégia para romper com o que nunca foi rompido politicamente e que impede  a democracia brasileira de avançar? Afinal, se houve o golpe de 2016 e depois a derrota eleitoral, em 2018, e um governo de extrema direita com uma agenda autoritária e fascista entre 2019-2022 é porque nossa democracia ainda não conseguiu extirpar o câncer destrutivo que vem lá da ditadura. Os grandes avanços na Constituição de  1988 não foram capazes de impedir a “conciliação de interesses e forças” como regra institucional de governabilidade.  Ela se manifesta no imaginário poiticamente fraco, que não nos permite avançar em “memória, verdade e reparação”, no controle democrático das Forças Armadas, portanto na segurança cidadã, nem num elemento fundamental  que é ter um Congresso Nacional  com um genuína representação da diversidade do que somos como povo e nação.

Propor o “avançar com calma” é não romper o encurralamento da democracia. Pior do que isto, é não ter perspectiva de real mudança. Evitar o enfretamento político somente com composições caso a caso, cedendo sempre aqui e lá, em votações no Congresso é se entregando ao poder do Centrão conciliador, “das bancadas do agronegócio, da mineração, da bíblia e da bala”, não é uma estratégia de desmonte do mal antidemocrático. Pequenos avanços combinados com concessões só são vantajosos para a estratégia da extrema direita e suas bases, contando com o Centrão fisiológico em seu apoio. Isto é um sinal desmobilizador, que não nos incentiva a participar para romper correlações de forças na intensidade e determinação necessárias, sabendo que temos as estratégicas eleições municipais deste ano, nos territórios locais em que vivemos todas e todos.

Sem dúvida, como cidadanias ativas não estamos fazendo a nossa parte, pois também estamos encurralados e nem sabemos onde e como incidir a partir do chão da sociedade. Queremos  desencurralar o governo e livrá-lo das artimanhas que diariamente lhe são impostas para governar, mas precisamos de sinalizações de rumos possíveis. Nossas lideranças de movimentos sociais e de partidos de esquerda parecem estar esperando por algo, quando deveriam assumir seu papel com mais vontade e garra.  A disputa de ideias está como que adiada, apesar do pipocar de iniciativas as mais diversas entre nós mesmos, porém sem maior impacto no seio da sociedade civil.  O imaginário caldo de visões, análises e ideias, criado pela difusão sistemática de fakenews, articulada pela extrema direita através de redes sociais, penetra no cotidiano de grandes contingentes da população. Estamos diante de um desafio estratégico, que não é fazer o mesmo de nosso lado, mas fazer com responsabilidade, criatividade e determinação a disputa de ideias e propostas.

 O fato objetivo é que não vemos sinais e nem sentimos vontade por parte de nossos representantes lá na esfera do poder estatal em relação a tal questão estratégica. Creio que os setores mais organizados das redes de cidadanias ativas concordam comigo de que  não foram abertos verdadeiros canais de comunicação, participação social  e diálogo virtuoso para nos mobilizar nas ruas em torno a propostas que valham a pena. Não existem dúvidas, na minha análise, sobre o quão fundamental que foi a vitória eleitoral de 2022. Mas o 8 de janeiro de 2023 mostrou a cruel realidade política polarizada que temos. E o que nos é passado pela estratégia governamental é para ter paciência... que os bons resultados virão... algum dia. Virão mesmo? 

Celebrar algo aqui e lá é não ter estratégia de enfrentamento da disputa de propostas e de políticas para a nossa democracia encurralada há muito tempo. O trabalho político fundamental está longe de se limitar às necessárias  negociações democráticas no Congresso, que é parte da institucionalidade, mas não é espaço de monopólio da política capaz de fazer avançar as coisas. A disputa democrática para valer se faz no chão da sociedade e não lá no Planalto!

O que está sendo produzido e comunicado pelo Governo Lula não está sendo no tamanho e na direção necessária.  Os índices de aprovação do governo, em baixa, demonstram muito bem que algo fundamental não está funcionando.  Fazer bom discurso lá fora ajuda e aumenta nossa autoestima,  mas... não desencurrala a democracia aqui dentro. Também pouco ou nada ajuda a mera retomada de boas políticas, sem um verdadeiro desmonte das ruins e, sobretudo, sem inovações e novos horizontes. Pior de tudo, ficamos de fora e não temos  nenhum sinal virtuoso no desmonte  do cruel arcabouço fiscal feito sob medida para a “convivência” com o parasitário financismo dos 1% de especuladores, a maior demonstração que continuamos com uma agenda neoliberal antidemocrática, limitante fundamental para avanços em mudanças econômicas democraticamente necessárias.

A sensação que está no ar é que a estratégia do Governo Lula 3 é mais de composição com o Congresso e menos de composição com a cidadania que o elegeu e que precisa ser alargada, para realmente evitar que a extrema direita volte. Temos um inimigo claro a enfrentar para poder avançar com uma democracia  ecossocial capaz de realizar transformações: o bloco da direita autoritária, sua estratégia e seus apoios fortes entre empresários e até no meio popular, sobretudo pela estratégia das igrejas de teologia do empreendedorismo e sucesso individual. Apostar numa estratégia de “desmonte  da polarização” escancarada na sociedade e no ambiente político  é deixar uma avenida aberta para a direita antidemocrática e suas agressivas estratégias de comunicação, com muitas inverdades, mas eficazes na construção do ambiente político, como nos lembra o Altman. [ii]

Uma questão intrigante é já ter passado quase um terço do mandato de Lula 3 e ainda não termos retomado e renovado um pacto amplo entre as forças políticas democráticas com mandatos, as lideranças partidárias, especialmente da esquerda, mas também muitas do centro democrático. Temos necessidade de um potente projeto inspirador para o Brasil. Mas projeto que precisa reconhecer  o fundamental papel das cidadania ativas, suas redes e fóruns, verdadeiros celeiros de iniciativas e ideias, com elaboração e disputa de propostas. São as cidadanias ativas organizadas que se articulam virtuosamente com expressões territoriais e locais, nas cidades, periferias, campos, rios e matas. Um potente projeto de democracia só poderá ser inspirador e mobilizador se valorizar a vibrante diversidade e potencialidade das milhares de iniciativas territoriais locais, no enfrentamento das questões cotidianas, onde a vida real se faz. Afinal, penso que concordamos que a democracia que queremos precisa cuidar de gente e da natureza, como sua razão de ser.

Mas voltando ao mal-estar com a perigosa continuidade do encurralamento da democracia, como defino, não podemos esperar para ver no que vai dar. Ou assumimos de forma mais incisiva a tarefa da reconstrução com Lula e seu governo ou o deixaremos amarrado aos impasses do Centrão e das investidas da direita autoritária. Pior, vamos continuar tendo um governo que se vê obrigado a contemporizar com as Forças Armadas e nos pede para esquecer o que foi a ditadura. Mas, também, não podemos simplesmente nos render ao agronegócio, mineração e petróleo, porque daí nunca virá outra economia voltada ao cuidado de gente e da natureza.

Extraio uma indicação imediata de algo  a ser feito de conversas de conjuntura, de que participo, junto com um pequeno grupo de parceiros de várias décadas, verdadeiros cúmplices da empreitada por um outro Brasil. No grupo temos lembrado a necessidade de fortalecer nossos meios alternativos de comunicação, que funcionam como referência para cidadanias ativas. Mas são frágeis. Como combatemos os “donos de gado e gente” não podemos esperar daí financiamento necessário e que amplie  o impacto de nossos meios na tarefa de disputa de  ideias e propostas. Estamos dependentes dos fracos apoios solidários, fundamentais para a autonomia política, mas por si só são insuficientes. Para ampliar impacto dependemos da atenção e comprometimento estratégico de forças políticas democráticas, especialmente as que tem acesso ao Estado, pois do outro lado nada virá. São destinados importantes recursos públicos aos grandes meios de comunicação, especialmente TVs, em geral mais inclinados à direita e centro-direita, pouco ou nada sensíveis às iniciativas, agendas e propostas de cidadanias ativas. O pior é que os meios mais importantes para o ativismo democrático são ignoradas pelas políticas públicas. Mas estes meio voltando atenção às cidadanias ativas organizadas, com potentes narrativas e avaliações de quem está com a gente, são estratégicos para a questão que levanto nesta postagem.

Termino, lembrando que não se trata de submeter as iniciativas a uma determinação e orientação política governamental. Pelo contrário, trata-se de reconhecer a potência democrática que brota da sociedade civil em termos de produção de análise de propostas de qualidade, muitas vezes até com críticas construtivas aos responsáveis políticos do nosso campo. Não conseguiremos desencurralar a democracia se tais iniciativas foram deixadas  na sombra, entregues à própria sorte. São estas iniciativas que privilegiam a investigação dos sinais virtuosos que brotam do chão da sociedade. Desconhecer isto é um grande risco para a tarefa do necessário desencurralamento e, sobretudo, de disputa de hegemonia democrática ecossocial de direitos iguais para todas e todos. Está dado o recado, para quem está disposto a ouvir!

 



[i] Nas minhas postagens mais antigas no blog desenvolvi com mais profundidade o que defino como encurralamento da democracia e indiquei pesquisas e artigos meus a respeito.

[ii] Lembro o Breno Altman aqui, pois foi ouvindo uma recente participação dele numa live (durante na sua viagem pelo Nordeste do Brasil, para lançamento do seu livro Contra o Sionismo: retrato de uma doutrina colonial e racista) ele enfatizou esta questão estratégica, mas de um modo muito mais adequado do estou fazendo. Infelizmente não tenho a referência exata. De todos os modos, me inpirou para retomar o veião do encurralamento democrático que venho explorando há tempo.

terça-feira, 12 de março de 2024

A Importância da Análise de Conjuntura Para Ativistas: um Saber Fazer Essencial

Tenho a sensação que, como cidadanias diversas, estamos atolados, literalmente. Não estou me referindo, no momento, às chuvas torrenciais em boa parte do Brasil, algo alarmante em si mesmo, pelos sofrimentos e estragos para muita gente, sinal evidente de mudanças na integridade do ecossistema climático. Meu olhar aqui, mais imediato, é ao perigo do atoleiro político, à falta de um claro protagonismo da ação política cidadã democrática ecossocial na atual conjuntura nacional. A vitória eleitoral de 2022 foi fundamental, mesmo apertada como foi. Mas as forças inimigas da democracia estão vivas e muito ativas. O 8 de janeiro de 2023, apenas uma semana após a posse foi um susto. Mas o fato essencial é a complexa rede de cumplicidades e financiamentos que foi criada pela extrema direita e que alimenta o ativismo político de seus seguidores.

O Judiciário, a Polícia Federal e a Procuradoria Geral estão fazendo a sua parte, demonstrando certa fortaleza das instituições que construímos democraticamente nos últimos trinta e poucos anos. Mas...,  democracia viva,  transformadora, de direitos ecossociais democráticos na diversidade,  só avançará e se firmará se as cidadanias ativas a agarrarem como seu projeto. As instituições políticas tem que fazer a sua parte, mas o farão se as cidadanias o exigirem, simples assim! E onde estamos? O que estamos esperando? Vamos simplesmente reagir aos atos dos que temos como inimigos a combater? Por que não buscamos uma agenda mais consistente, que nos empodere, ao invés de nos comparar aos que declaradamente são forças antidemocráticas e contra qualquer mudança substantiva, além de apoiados por criminosos.

Vou destacar alguns aspectos essenciais, que precisamos dar mais atenção, com análise e pressão política. Aliás, a diversidade de visões de tais questões precisa ser posta na mesa e discutida, pois todo mundo que busca transformação e justiça ecossocial é essencial para um vigoroso processo de elaboração de um pensamento estratégico. Não adianta ficarmos reclamando que o Governo Lula III precisa ser mais ousado, que está devendo transformações mais virtuosas aqui dentro, pois a boa performance lá fora ajuda e recupera a autoestima nacional, mas nada transforma aqui no país. Temos que reconhecer que, na institucionalidade política democrática que temos, está difícil para o governo romper a barreira – verdadeiro atoleiro político – que as forças do Centrão impõem desde o Congresso. Além disto, temos que ter presente o peso do financismo especulativo na definição da política monetária e fiscal do país, desde o Banco Central e seu Conselho Monetário, amarrando o Ministério da Fazenda. Estamos diante de uma espécie de câncer corrosivo da economia do Brasil, pois o financismo nada produz, só suga os recursos que seriam fundamentais para a construção de políticas transformadoras nas diferentes áreas da vida coletiva.  As muitas iniciativas governamentais não tem como avançarem esbarrando nas imposições e amarras do poder dos especuladores financeiros, das forças políticas do Centrão e da direita fascistóide.  

Poderes reais na sociedade se enfrentam construindo poder democrático e com inspiração transformadora. Como cidadanias com poder de voto, ganhamos a eleição em 2022 e elegemos Lula, mas numa margem bastante apertada. Mas isto não foi e nunca será suficiente, pro si só, para ampliar o poder político e para avançar em mudanças essenciais. Bem, basta olhar para ver: decididamente, nada de realmente transformador está acontecendo, apesar de retomada de muitas políticas virtuosas já implementadas no passado. Não penso que isto seja suficiente para nos livrar das ameaças fascistas, da violência, destruição, racismo, machismo e exclusão, nem da escandalosa desigualdade social.

Sei que as análises necessárias - histórica, antropológica, social, política e econômica - enquanto tais, não mudam nada, por melhor que sejam, pois só podem diagnosticar, apontar problemas e, nem sempre,  indicar algumas pistas para possíveis transformações. Mas quando associadas  e motivadas pela ação de cidadanias ativas – o caso de análises de conjuntura por ativistas, como o Betinho lembrava – tem a virtude de empoderar para ação. Análises produzidas de forma compartilhada, com intencionalidade democrática, emancipam o pensar de ativistas e, ao mesmo tempo apontam caminhos a seguir, tanto para ação no seio da sociedade –  na disputa de ideias, valores, princípios, propostas, buscando construir hegemonia -  como para participar de eleições, de espaços na implantação de políticas e para a pressão sobre as instituições governamentais e parlamentos. Isto é o que pode, e de fato faz, criar um pensamento estratégico voltado à ação, transformador. Daí a importância da análise de conjuntura, da situação concreta, num esforço coletivo voltado pra saber onde e como incidir. Ela precisa começar nos círculos de amizade, de proximidade,  de lazer, de trabalho, num ato prazeiroso de viver e compartilhar a vida. A análise de conjuntura vira  essencial nos grupos de ativismo cidadão, instituídos ou não, formando associações, redes, fóruns. Sem análise permanente nunca conseguiremos disputar e fazer a luta política que nos cabe – a disputa de hegemonia de um pensamento democrático transformador para garantir direitos ecossociais iguais na diversidade de cidadanias e de territórios do país que temos.

O fato é que está no ar uma sensação de espera, sem estar claro o que esperamos. Enquanto isto, o financismo impõe regras econômicas, monetárias e fiscais. O Centrão, por outro lado, avança com suas demandas das bancadas corporativas e de redutos eleitorais,  ganhando poder de controle sobre o governo federal.  E a onda fascista na sociedade mostra a sua capacidade de tomar as ruas. Além disto, os estrategistas do fascismo tem um plano claro para as eleições municipais deste ano, buscando  ampliar o seu  controle sobre  a base territorial onde vivemos todas e todos, que de certo modo organizam o nosso próprio cotidiano. Bem, territórios onde milicianos, criminosos e polícias cúmplices – aliadas de primeira hora do fascismo armado e destruidor -  tem um super poder real para afetar a vida de todos, matando muita gente no seu caminho. O que estamos fazendo a respeito como cidadanias ativas democráticas? Este chão é a base. Não podemos menosprezá-lo numa estratégica efetiva de construção e transformação democrática.

Reconheço que não faltam resistências e iniciativas cidadãs muito diversas e virtuosas a partir dos territórios. Em geral, se constituem para lutar por causas e direitos fundamentais na vida cotidiana: contra a violência, por  acesso à água e ao esgoto, habitação, saúde, creche e educação para filhas e filhos, contra tráfico de drogas e domínio de milicianos, por transporte decente, renda, direito à cidade, até para iniciativas de produção agroecológica em terrenos baldios nas periferias ou territórios de vida no campo, sempre para produção e acesso a alimentos de qualidade. E por aí vai a prática cidadã de resistência, quase sempre sob liderança de mulheres. Agenda concreta, tão concreta como a vida. Mas, em geral, algo um tanto “invisível” para os poderes instituídos estaduais e municipais, que agem mais como “bombeiros” em emergências – temporais e inundações, crimes escandalosos, etc. – quando não são eles mesmos os agentes dos vários problemas nos territórios da periferia, com ações policiais de extermínio, como vemos diariamente nos noticiários.   

Já temos conhecimento acumulado sobre as virtudes emancipatórias da multiplicidade de  resistências enraizadas no territórios locais, de um saber-fazer fundamental para a construção de práticas baseadas em princípios e valores éticos de cuidado, convivência e compartilhamento, indispensáveis para uma sociedade de bem viver, de viver saboroso. E temos a inspiração do que nos propôs Paulo Freire como sendo isto a base da emancipação política e da construção de hegemonia democrática.

O que nos falta, então? Ouso dizer que não estamos valorizando estrategicamente e suficientemente a construção do tapete coletivo de tais experiências virtuosas, tapete grande e forte, que nos entrelace e dê força política diante dos desafios que temos pela frente. Precisamos “olhar mais para a planície, e menos para o Planalto”, mas sem descuidar dele. Nossa força está aqui, na planície onde levamos a vida. Está força só chegará lá com poder para influir politicamente se estiver forte aqui! Neste sentido, na tarefa da construção do tapete coletivo, destaco que o que temos de mais virtuoso e promissor são o MST e o MTST, junto com Povos Indígenas e Quilombolas, com sua história desde os territórios. O movimento sindical surgiu com vigor e foi fundamental na redemocratização, mas não soube se reinventar diante da avassaladora globalização e seu financismo parasitário, nem diante do extrativismo e do agronegócio de características coloniais, dada a sua prática de expansão pela conquista e destruição de nosso grande território.

Termino reconhecendo que, finalmente, surgiu um esforço de organizar um ato amplo de cidadanias de esquerda em defesa da democracia. Mas qual é exatamente a bandeira mobilizadora e unificadora? Qual é a nossa agenda? Não podemos simplesmente reagir à provocação feita pela direita fascista, o que será um desastre anunciado, no meu modo de ver a conjuntura. Precisamos dar as costas para eles e fazer o que até aqui não fizemos: retomar o protagonismo nas ruas com bandeiras que tem sentido agregador para a diversidade de identidades e vozes de cidadania pelo Brasil afora. Precisamos olhar mais para o chão em que vivemos e, talvez, menos para o drama que se desenrola nas instituições. O desempate se não vier do chão da sociedade, simplesmente não virá! Mas, de todo modo, é de louvar o despertar, a intenção de buscar caminhos, de agir como cidadanias, condição para uma verdadeira conquista de hegemonia. Antes tarde do que nunca!

A análise de conjuntura não substitui a ação cidadã, pois ela mesma é um momento de construção da ação, da incidência política, e, ao mesmo tempo, um momento de avaliação para nova ação... O ativismo cidadão é um modo de agir, viver em coletividade, em células democráticas. Quando tais células se agregam organicamente e com uma estratégia de conquista de hegemonia, tornam-se irresistíveis. As “redes sociais” podem ser um privilegiado espaço como território de disputa de ideias,  do modo de nos agregar e de adquirir força. Estamos fazendo o necessário?

  

segunda-feira, 4 de março de 2024

Momento de Perplexidades

Sinto-me sem visão clara para definir uma direção do que fazer nesta conjuntura. Claro, ação individual é apenas a expressão de uma atitude ética de viver e agir, pois o que conta, em última análise, é o processo coletivo, algo como uma onda que se move e arrasta tudo e todos. No entanto, como ativista e analista, que assume buscar sinais e apontar possibilidades que tenham sentido, nas mais diferentes conjunturas, é se sentir numa espécie de dever de  olhar com lentes afinadas o que se passa no cotidiano, pesquisar, auscultar, mapear ações e reações, examinar céus, rios e mares, florestas, o burburinho cotidiano das cidades, as oscilações dos mercados especulativos, o jogo incansável dos que estão exercendo o poder político, o vai-e-vem da vida,  sempre em busca de brechas sobre o que precisamos fazer,  onde incidir e como avançar. É o que o coletivo – a que a gente pertence de modo afetivo, solidário, e de proximidade territorial e afinidade política – espera de umas e uns, de outras e outros, cada qual fazendo a sua parte indispensável. É a aventura do viver lidando com perplexidades, sem saber o que fazer.

Sim, muita coisa está acontecendo ao mesmo tempo. Não é a falta de vida cheia de surpresas, do local ao nacional e ao mundial que está faltando. O que faltam são sinais mais potentes que não sejam de destruição, guerra e morte, mas  de propostas virtuosas, de esperança, de luz no horizonte. O que assistimos é um “desarranjo” de tudo: a economia predatória e excludente continua se refestelando; o clima com surpresas diárias e sempre ameaçadoras para contingentes populacionais das periferias do mundo; guerras de extermínio genocida; fome imposta a populações inteiras; governos que financiam tais guerras (falo especialmente dos EUA) e ainda, cinicamente, enviam alimentos de paraquedas para as populações sob ataque; malucos que falam e escutam conselhos de cachorros e destroem conquistas democráticas, como Milei na Argentina; fascismos que se assumem como tais, sem vergonha, e fazem encontros para se vangloriar de suas façanhas assassinas, como a direita mundial sob liderança de Trump; regimes autoritários com arsenais nucleares capazes de destruir o planeta; ou, ainda, como no Brasil, uma direita descarada que realiza manifestações apropriando símbolos nacionais e os associam ao genocídio praticada por Israel contra o povo palestino, tudo isto para sustentar propostas golpistas de destruição da nossa sofrida democracia e os direitos duramente conquistados. No meio de tudo, realizam  Fóruns oficiais, como o da última COP, para discutir mudanças climáticas, sob a presidência de alto executivo de petroleira do mundo árabe! Ou ainda, como  nas reuniões reservadas do G-20, das maiores economias nacionais do planeta, para celebrar entre si, num clube fechado, e para nada decidir de relevante para os povos do mundo.

Enfim, o que pensar e dizer disto tudo? Mais, o que fazer e como agir num momento assim? Sei que a pior solução é desistir, deixar para lá, ficar com seus  botões e meu jardim, levando a vida. Mas não dá, definitivamente! Viver é não se entregar e no meu caso, dada a idade, é não deixar o “velho tomar conta”. Mas a dúvida que teima em perturbar a consciência é sobre como contribuir com a palavra e a reflexão engajada para dar a volta por cima, desde aqui e agora. Sei e reafirmo com convicção que mudanças só podem vir de lá onde vivemos e levamos nossas vidas, dos territórios comuns, cada uma e cada um se engajando e fazendo a sua parte. Afinal, não existe uma fórmula ou solução mágica e simples para um mundo humano e um planeta comum extremamente complexo para o que a  vida proporciona, cuja especificidade é ser muito diversa. Mas estamos fazendo a nossa parte?

De onde olho, daqui da periferia rural da Região Metropolitana do Rio, sinto que estamos perplexos e paralisados. Todas e todos estamos esperando! O que exatamente? Claro, temos uma situação política mais aberta e de esperança, depois do desastroso governo do inominável, com aquele pacote de políticas destrutivas e ataque à democracia. Parece que até perdemos a própria referência do viver em coletividade, baseado nos princípios fundamentais que são de cuidado mútuo, de convivência e de compartilhamento, de direitos iguais na diversidade, entre todas e todos, condição de uma democracia ecossocial  necessária e virtuosa para um país onde cabe toda a sociedade,  sem exclusões, discriminações ou violência. Mas será que ficar esperando algum momento mais propício nos leva para algum lugar? O que podemos e devemos fazer em um contexto contraditório e de pouca luz?

Não descarto que, talvez, todas as perplexidades que estou apontando – e tem muito mais outras – sejam mais minhas do que coletivas, compartilhadas entre muitos ou ao menos de algum modo vividas por setores mais amplos de cidadanias ativas. O que sinto é a falta de sinais de inquietação no nosso seio, de mal-estar e de buscas consequentes. Talvez seja a falta de acesso à comunicação de qualidade, hoje realizada basicamente por redes digitais que invadem, com muita informação – muitas vezes falsa – mas que pouco ou nada de substantivo informam.

Porém, como tive uma vida toda de analista e ativista, está difícil de desistir agora. Tornou-se um jeito de viver. Mas não ter aquela roda acolhedora e de cumplicidades compartidas é um buraco na vida cotidiana. A análise de conjuntura compartida, feita  regularmente,  me faz falta, ainda mais em momentos de perplexidades como o atual. Afinal, o saber político é algo coletivo, nunca particular. Ele se faz em conjunto e em comunhão. Esta é a condição de análise de conjuntura ser feita para agir, cada uma e cada um, de onde está, do seu lugar único na sociedade, do local ao mundial. Como reconstruir espaços de busca de saber coletivo, um desafio permanente para analistas que são ativistas? As ideias e os argumentos criados na troca e no debate tem uma qualidade única. Trata-se de análise que funciona como poderoso cimento agregador de bloco social, de força política coletiva. Mas, parece, que estamos sendo atropelados pelas informações fáceis e abundantes das tais redes sociais digitais e estamos deixando de pensar estrategicamente. Sem dúvida, estamos juntos num certo sentido, mas não criamos consistência orgânica, que nos leve à ação, com os meios possíveis.

Tenho sinalizado nas postagens do blog a falta de protagonismo cidadão na conjuntura que vivemos. Acho que uma tal questão completa o momento de perplexidades sentidas. Mas protagonismo coletivo não surge espontaneamente. Precisa ser construído e com paciência. O que estamos fazendo a respeito? O ato convocado para o dia 23 deste mês tem alguma chance de expressar uma volta do protagonismo de cidadanias com nossa diversidade? Não estou vendo aquela troca fecunda de ideias capazes de dar vida e criar liga para um ato assim!

Assim, no meu caso, aumentam as perplexidades. Tomara que eu esteja enganado. Que precisamos reconstruir protagonismo cidadão democrático é indiscutível. Mas como? Pensei que a vitória eleitoral de 2022, com todas as merecidas emoções que propiciou, nos faria despertar aos perigos que nos rondam e nos levar a se engajar num processo de “desencurralamento” da democracia brasileira. Bastou uma semana desde a posse para acontecer aquele surto destrutivo e ameaçador do dia 8 de janeiro de 2023. Mas, já no segundo ano, vejo que ainda estamos esperando... O que exatamente? Não sei! Aliás, será difícil encontrar a resposta se não começarmos desde aqui e agora a assumir a tarefa de reconstrução democrática no seio da sociedade civil. É bom que o governo faça o possível e que Lula use a sua genialidade política para romper barreiras. Mas, de um ponto de vista de democracia intensa, somos nós – cidadanias ativas – que não estamos fazendo a nossa parte. Estamos deixando o governo entregue à lógica da institucionalidade política e jurídica, tendo que lidar com as demandas de um Congresso dominado pelas “bancadas do boi, da bala e da fé”, com seus currais eleitorais. Falando curto e grosso, falta pressão cidadã na conjuntura. Não confundir o que estou apontando com a volta da representação cidadã formal nos muitos conselhos de políticas. A questão que aponto é o ativismo no nosso território extremamente diverso, no chão da sociedade, onde podemos fazer a diferença.

Não estou simplesmente vendo aquela imagem de bandeiras do Brasil e da Israel juntas dos bolsonaristas. Todas e todos sabemos que a direita fascista tem espaço em nossa sociedade e voltou a não ter vergonha de se manifestar e carregar as suas bandeiras, emporcalhando os nossos símbolos. Estou falando do “vazio político” que nossa atitude coletiva, de cidadanias ativas democráticas, produz ao ficar calada, vendo e resmungando, sem ação inovadora. Não se trata de fazer o mesmo, pois não é simplesmente fazer grandes manifestações. O que precisamos é reconstruir o tecido cidadão, a vibrante diversidade que existe na sociedade brasileira, ativa no local, mas que parece não conectada nacionalmente no momento histórico crucial que vivemos. Precisamos assumir o protagonismo na disputa de hegemonia, entendida como um modo de ver, pensar e agir, guiado por princípios e valores democráticos transformadores, em busca de direitos iguais na legítima e fundamental diversidade do que somos como uma das grandes populações nacionais do mundo, extremamente diversa, mas que sabe produzir felicidade quando necessário, num território único e fundamental para a humanidade e o Planeta Terra, como um todo de interdependências vitais.

Não existem fórmulas para  resolver isto. Mas existem muitas pistas. Temos que olhar mais para as planícies da sociedade – os dramas vividos e enfrentados cotidianamente  nos territórios – mais do que para o poder lá no Planalto Central. A democracia se faz nos territórios ou não se faz como democracia intensa e transformadora. Se vamos superar as perplexidades ou não, ou então criar outras, não sei. Só sei que as perplexidades podem inspirar a reação. É isto que precisamos! Aliás, está talvez seja a única possibilidade de dar a volta por cima. O que estamos esperando?

 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

É POSSÍVEL COMBINAR QUESTÃO ECOLÓGICA, EXTRATIVISMO PETROLEIRO E AGRONEGÓCIO?

 

De um ponto de vista político, combinar tais questões no exercício do governo é, talvez, uma “geringonça”[i] ao estilo brasileiro. Boaventura Souza Santos definiu como geringonça um governo passado de alianças esdrúxulas no caso de Portugal, mas que bem ou mal foi uma saída política engenhosa para a democracia. É esta a armação política do Governo Lula para a governabilidade e nos tirar da ameaça autoritária e  fascistizante que emergiu no Brasil? 

O Lula, como líder democrático habilidoso, reconhecido aqui e além fronteiras, está fazendo ver o Brasil como um potência emergente no enfrentamento da mudança climática. Gostemos ou não, o fato é que isto, no fundo, ajuda a criar um clima político de que, afinal, temos um líder de origem popular que recuperou a autoestima nacional. É bom e que seja assim! Afinal, chega de sermos tratados como uma grande “república de bananas”, para lembrar o modo como o país imperial, EUA, olha para o seu grande quintal de países latinoamericanos.

Mas, objetivamente, sabemos que a combinação de combater a crise climática e, ao mesmo tempo, continuar  com o agronegócio predador e tentar ser potência petroleira é se dar uma agenda econômica que nada muda e torna a economia ainda mais ameaçadora, para “cuidar de gente e da natureza”, como enfaticamente anunciado por Lula na posse. Sei que 99.9% dos economistas vão dizer que não há outra possibilidade, pois somos um país que precisa do desenvolvimento para combater a fome, a miséria e a pobreza, criando uma sociedade mais igualitária. Será que o tal desenvolvimento gera isto ou vai repetir o “milagre” que a ditadura produziu? Ou melhor, a nossa questão é “crescer” a qualquer custo ou mudar os fundamentos de uma economia capitalista estruturalmente marcada pela colonialidade e exportação de matérias primas para os polos capitalistas dominantes,  apostando no extrativismo destruidor da generosa base natural, a mãe comum de todas e todos nós?

Sei que a questão é espinhosa e que a estrutura de classes e a correlação de forças políticas é um limitante concreto para o governo e a sociedade como um todo. Mas, afinal, se a cidadania se engajou para dar a vitória eleitoral para Lula foi porque quer mudanças e que sejam substantivas e resilientes, para que ameaças de retrocessos que vem de dentro e de fora não tenham chance de voltar e continuar sua tarefa de destruição.

Aqui cabe esclarecer o centro da questão. Para mudar estruturalmente, em termos simples e concretos, precisamos de vontade política para tal. Aqui estou me referindo a buscar mudanças inspiradas  em uma perspectiva ecossocial transformadora e includente, em busca de direitos iguais na diversidade, mais do que índices de crescimento econômico. O PIB nunca foi e nunca será indicador de qualidade democrática e de direitos. Longe de mim dizer que não precisamos de economia, pois economia é a base, é o chão de qualquer sociedade. Afinal, viver é se relacionar com a natureza, em sua diversidade de territórios e possibilidades, e daí extrair vida, mas sem destruir. Também não penso que a questão seja  fácil, como se a  mera sinalização de uma direção democrática ecossocialmente transformadora seria suficiente e possível, sem um árduo trabalho político de construção de cidadanias ativas e relações de forças que a adotem e que disputem hegemonia de tais propostas na sociedade como um todo.

Voltando ao ponto inicial, claro que algo importante se está fazendo no Brasil. Afinal, o Lula e o Brasil não teriam o reconhecimento de possível potência ecológica só pelo tamanho do território. O desmatamento caiu e existe vontade política nesta direção. Mas está num impasse, por enquanto, a questão social e ecológica estratégica do direito dos povos das “das florestas, águas e campos aos seus territórios de vida, contra agronegócio, extrativismo energético e mineral. Aqui aponto a necessidade de derrotar a tese “marco temporal”.

Na questão de parar o extrativismo energético e manter a integridade de territórios, existem   outros países maiores até do que o Brasil, mas que não vem apresentando a mesma intencionalidade de mudar. Basta ver EUA, Rússia, Canadá. A China – grande em território e população – é hoje o maior país vilão nas emissões de gazes de efeito estufa, que provocam a mudança climática. Mas, ao mesmo tempo, a China é que mais avançou até agora em investimentos em energia renovável, liderando de longe nesta questão. E tem e fato real das emissões de gazes de efeito estufa acumuladas no tempo, onde a responsabilidade do Norte Global é de longe a maior. Ou seja,  todo mundo é responsável, mas de modo diferenciado. Isto não quer dizer que se trata de uma justificativa para continuar tendo uma economia insustentável em nome do combate à miséria e à pobreza, que é, sem dúvida uma questão central. Será que não existe outra forma? Ou é falta de vontade política?

Estamos diante de uma questão que é política e econômica  ao mesmo tempo, um projeto de país democrático, de direitos ecossociais iguais na diversidade e sustentável, fazendo a sua parte para outro modo de se viver. Assim, estamos diante de uma outra questão, talvez estrategicamente ainda mais fundamental, uma direção que combine democracia com busca de transformação ecossocial, que saia do convencional. Agronegócio, extração petroleira e, de forma mais abrangente, mineral, são um “pé de barro” no financiamento da transformação necessária que o Brasil e o mundo precisam, fazendo justiça social e evitando a destruição da integridade dos sistemas ecológicos do Planeta Terra, que nos dão a vida, para nós e gerações futuras.  Mas, mesmo para algo menos ambicioso, como criar condições de garantir bem estar e igualdade de direitos  aqui e agora para as grandes maiorias das periferias, rurais e urbanas, de nosso Brasil, o agronegócio e o extrativismo não tem como gerar, dado o modelo “colonial” e subserviente que carrega para abastecer os mercados centrais ávidos por matéria prima, que  movem suas economias voltadas à acumulação capitalista sem limites. Os dados de concentração de riqueza nas maõs de 1% da população mundial são cada vez mais absurdos e vergonhosos. Como defender a continuidade de uma economia assim?

O curioso entre nós é que o agronegócio e o extrativismo são mais vistos como indispensáveis para o Brasil, ao menos pelo modo como a grande mídia e os poderes políticos os tratam. E falar de seus problemas é correr o risco de ser taxado como contrário ao povo brasileiro. Na verdade a disputa de ideias na sociedade, para promover mudanças na lógica destrutiva embutida no agronegócio e no extrativismo, tende a ser genuinamente mais comprometido com o futuro do país e seu povo do que os argumentos e interesses dos arautos das classes dominantes. Os que defendem incondicionalmente o agronegócio e o extrativismo de todo tipo são os mesmos que não querem nenhuma interferência do Estado na economia e apoiaram a destruição da “Lava Jato” e o próprio golpe contra Dilma, abrindo o caminho para a ameaça autoritária que se abateu sobre o país.

O meu interesse estratégico, como analista e ativista, é alimentar o debate entre cidadanias ativas para que assumamos mais e mais o papel único que só cabe a nós, pela participação engajada em todos os espaços possíveis, do chão da sociedade:  na vizinhança e nas comunidades, local de trabalho, organizações e movimentos sociais, redes, coalizões e fóruns. Mas participação que deve buscar incidir estrategicamente nos os espaços do poder, ministérios, conselhos, legislativo, do local ao estadual e chegando no “planalto”. É neste processo de disputa política que se define a hegemonia, influindo nas propostas e formulações políticas para gerir a economia do país – dever do Estado em democracias intensas – chegando aos espaços sociais e políticos mundiais. Fazer propostas, debater e pressionar é tarefa nossa, gostem ou não  os detentores de mandatos conseguidos pelo nosso voto ou os poderosos “donos” da economia que destrói, voltada especialmente para alimentar o mercado capitalista sem respeito à integridade natural do planeta.  

Aqui só faço o alerta sobre uma questão contraditória, tensa entre nós mesmos que apostamos nas virtudes e possibilidades de construção democrática de um país de mais igualdade de direitos com respeito a diversidade, de cuidado, convivência e compartilhamento, tanto de gente como da natureza. Há, sem dúvida, o mantra do desenvolvimento – como já refleti em postagens anteriores – que contaminou e continua bloqueando muito do pensamos sobre economia. E há o tabu de que a agenda ambiental e climática é coisa de quem não sofre as urgências do cotidiano: trabalho decente, transporte renda, comida, casa, filhos, escola e saúde. Na verdade, quem ainda pensa assim, parece que não está vendo e sentindo o drama vivido por enormes contingentes de nossa população – especialmente dos mais pobres, vivendo em periferias urbanas e rurais – com os eventos climáticos extremos que vem se tornando cotidianos em nosso país tropical. No caso do Brasil, a principal contribuição em emissões que causam mudança climática vem do agronegócio,  sem dúvida um dos maiores produtores mundiais de grãos e carnes do mundo. No entanto, temos fome e miséria  no Brasil! E apostar em nos tornarmos  potência petrolífera é assumir mais responsabilidade pela mudança climática. É isto que queremos ou precisamos?



[i] Segundo Houaiss, trata-se de algo malfeito, com estrutura frágil e funcionamento precário.